quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

FRANÇOIS FÉNELON (1651-1715)

François de Salignac de La Mothe-Fénelon nasceu em 1651, no castelo de Fénelon, na França, era descendente da alta nobreza. Entrou no seminário em 1672 e em 1695 foi eleito bispo. Escritor e orador francês. De família nobre, segue a carreira sacerdotal. É discípulo de Bossuet, que lhe retira a sua amizade a partir de 1688 por se inclinar para o misticismo, por causa da influência da doutrina quietista de Molinos. É pedagogo ao serviço da aristocracia, moralista e tratadista político. Na sua época tem grande reputação como pregador, mas conservam-se apenas amostras da sua eloquência. Passa à posteridade graças a As Aventuras de Telémaco, que sob a aparência de uma novela passada na antiga Grécia propõe com verbo fácil e brilhante uma série de ideias políticas e morais para a educação dos príncipes. O seu estilo, que seduz os seus contemporâneos pela suavidade, a elegância e a pureza do idioma, está carregado por um excesso de reminiscências clássicas.

Fénelon envolveu-se com certa mulher mística chamada Madame Guyon com quem partilhava de certa doutrina que na teologia se conhece por "doutrina do amor puro". Com essa doutrina Fénelon se alinhava nas filas do "quietismo", por isso foi perseguido e condenado por outro grande bispo, Bossuet. Ficaram famosas na história da Igreja as contendas e controvérsias entre Fénelon e Bossuet, sem dúvida dois grandes homens e dois grandes bispos. O bispo Fénelon foi um dos grandes mestres da língua francesa; e um dos maiores diretores de consciência de que se tem notícia. Figura importante na corte de Luís XIV (até cair em desgraça e retirar-se para a sua diocese de Cambrai), ele exercia essa direção espiritual sobretudo através da sua correspondência; e assim é que temos, até hoje, perfeita noção do “estilo” de Fénelon — tanto o literário como o espiritual. Há que citar, entre as suas obras, o Tratado da Educação das Moças, Diálogos sobre a Eloquência, Carta sobre as Ocupações da Academia Francesa, Máximas dos Santos e Diálogos dos Mortos.
Fénelon faleceu em 1715, em Cambrai, na sua diocese.

PENSAMENTOS DE FÉNELON

O trecho seguinte foi dirigido a uma dama da corte que se queixava de estar sempre triste:

"Muitas vezes a tristeza vem de que, procurando a Deus, nós não temos o sentimento da sua presença. Querer sentir não é querer possuir: é uma espécie de amor próprio; queremos ter certeza de possuir, para só então sentir a consolação. A nossa natureza comum se impacienta de viver apenas da fé. Ela quer sair dessa situação, porque na verdadeira fé, parecem faltar os apoios; a alma fica como que no ar; ela gostaria de “sentir” que está progredindo. Gostaríamos, por amor próprio, de ter o prazer de nos vermos perfeitos; resmungamos porque isso ainda não é visível; ficamos impacientes, altivos, de mau humor contra os outros e contra nós mesmos. É um erro. Como se a obra de Deus pudesse concretizar-se pela nossa tristeza! Como se pudéssemos nos unir ao Deus da paz perdendo a paz interior... “Marta, Marta, você se preocupa com muitas coisas”, diz o Cristo, que acrescenta: “Só uma coisa é necessária”; e essa coisa é amá-lo e saber viver tranqüilamente a seus pés."

As cartas de direção espiritual que Fénelon escreveu são famosas; de uma delas extraiu-se o trecho seguinte:

"É certo, segundo a Escritura, que o espírito de Deus habita dentro de nós, que ali ele age, reza sem cessar, geme, deseja, pede o que nós mesmos não sabemos pedir, nos anima, nos impele, nos fala em silêncio, nos sugere toda a verdade, e nos une de tal modo a ele que nós nos tornamos um mesmo espírito com Deus. Eis o que a fé nos ensina; eis o que os doutores mais afastados da vida interior não podem deixar de reconhecer. Entretanto, apesar desses princípios, eles tendem sempre a supor, na prática, que a leiexterior, ou uma certa luz de doutrina e de raciocínio, nos ilumina interiormente, e que em seguida é a nossa razão que age por ela mesma a partir dessa instrução. Não contamos suficientemente com o mestre interior que é o Espírito Santo, e que faz tudo em nós. Ele é a alma da nossa alma: não poderíamos formar nem pensamento nem desejo a não ser por ele. Infelizmente, assim é a nossa cegueira: agimos como se estivéssemos sós nesse santuário interior; quando, bem ao contrário, Deus está ali mais intimamente do que nós mesmos".

O trecho seguinte chama-se “Fidelidade nas pequenas coisas”:

"Gostaríamos cem vezes mais de fazer a Deus alguns grandes sacrifícios, por dolorosos que fossem, com a condição de ganhar em seguida a liberdade de seguir nossos gostos e hábitos em todos os pequenos detalhes. E, no entanto, é pela fidelidade nas pequenas coisas que a graça do verdadeiro amor se apóia, e se distingue dos fervores passageiros".

"Deveríamos saber que Deus não considera tanto as nossas ações quanto o espírito de amor com que as praticamos. As pessoas julgam as nossas ações pelo exterior; mas para Deus, pouco importa o que brilha aos olhos dos homens. O que Ele quer é uma intenção pura, é uma vontade dócil em Suas mãos, é um sincero desprendimento de nós mesmos. Esse exercício pode ser praticado muito melhor nas coisas comuns do que nas extraordinárias — onde a tentação do orgulho é sempre muito grande".

"Tudo o que pedimos é morrer antes de sermos infiéis ao Senhor. Não nos dê a vida se formos amá-la demais".

"Muitas vezes nossos erros nos beneficiam mais do que nossos acertos. As façanhas enchem o coração de presunção perigosa; os erros obrigam o homem a recolher-se em si mesmo e devolvem-lhe aquela prudência de que os sucessos o privaram".

"Senhor, dê a nós, seus filhos, aquilo que não sabemos pedir. Não teríamos outro desejo a não ser cumprir Sua vontade. Ensina-nos a rezar, ora em nós".

"Meu Deus, resquarde-me da escravidão fatal que os homens insanamente chamam de liberdade. Apenas no Senhor está a liberdade. É a Sua verdade que nos liberta. Servir ao Senhor é a verdadeira conquista".

"Não basta mostrar a verdade, é preciso apresentá-la amavelmente".

"Já é saber muito quando se sabe que não se sabe nada".

"O mais livre de todos os homens é aquele que consegue ser livre na própria escravidão".

"Nenhum poder humano consegue forçar o impenetrável reduto da liberdade de um coração".

"Desconfiem dos sábios e dos grandes argumentadores. Eles esmorecem à volta dos problemas [...], a sua curiosidade é uma avareza espiritual que é insaciável. São como os conquistadores que destroem o mundo sem o possuir".

"Antes de buscarmos o perigo, torna-se indispensável prevê-lo e temê-lo; mas, quando estamos metidos nele, só nos resta desprezá-lo".

"Aquele pensa que sabe muito, mas não sabe de nada, e a sua ignorância é tanta que nem sequer está em condições de saber aquilo que lhe falta".

"Aqueles que nunca sofreram não sabem nada; não conhecem nem os bens nem os males; ignoram os homens; ignoram-se a si próprios".

"Desejar o impossível é doença da alma".

"Se quereis formar juízo acerca de um homem, observai quem são os seus amigos".

"Reservando ao pintor a tarefa severa e controlável de começar os quadros, atribuímos ao espectador o papel vantajoso, cómodo e cómico de os acabar pela sua meditação ou pelo seu sonho".

"Só é digno de glória o coração capaz de suportar o desgosto e de desprezar os prazeres".

"A pátria de um porco encontra-se por toda a parte onde há bolotas".

"As injúrias são os argumentos daqueles que não têm razão".

"As almas belas são as únicas que sabem o que há de grande na bondade".

"Todos os homens procuram a paz da alma, mas não a procuram onde ela existe".

"Tão-somente o infortúnio pode converter um coração de pedra num coração humano".

"A avareza e a ambição mostram-se mais descontentes do que não têm, do que satisfeitas com o que possuem"

"Para que uma obra de arte seja realmente bela, é preciso que nela o autor se esqueça de si mesmo e me permita esquecê-lo".

"É indigno de um homem honesto servir-se dos restos de uma amizade que termina, para satisfazer um ódio que começa".

5 comentários:

rose disse...

Maravilhaa!!

rose disse...

Maravilha!!!

rose disse...

"Já é saber muito quando se sabe que não se sabe nada".

rose disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Que linda comunhão este irmão tinha com o Senhor!!