segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

OS MÍSTICOS CATÓLICOS

Os seguintes são os mais notáveis místicos da história da Igreja. Eles construiram de maneira definitiva a vida da Igreja pelos seus escritos. Alguns tiveram visões e revelações e outros receberam os estigmas de Jesus. Cumpre notar que alguns são santos e outros não. Na medida do possível postarei no Blog, textos sobre estes místicos.

Santo Agostinho, Angelus Silesius, Santo Antônio Abade (Santo Antão), São Bernardo de Claraval, São Boaventura, Santa Catarina de Genova, Santa Catarina de Sienna, São Clemente de Alexandria, David de Augsburg, David de Dinant, Charles de Foucauld, Denys-o Cartusiano, Mestre Eckhart, São Francisco de Assis, Santa Gemma Galgani, Santa Gertrudes, São Gregório de Nissa, Gerhard Groote, Santa Hildegarda de Bingen, Walter Hilton, Hugo de São Victor, São João de Ávila, São João da Cruz, John Scotus Erigena, Juliana de Norwich, Margery de Kempe, São Luis de Montfort, São Luis de Granada, São Maximo - o Confessor, Santa Melquiades, Thomas Merton, Nicholau de Cusa, São Paulo apóstolo, Pierre d’Ailly, Pseudo-Dionísio Areopagita, Ricardo de São Victor, Richard Rolle, Santa Tereza de Ávila, Santa Teresinha do Menino Jesus, Tomas de Kempis e São Tomas de Aquino.

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL (1090-1153)

Bernardo de Claraval nasceu em Fontaine-lès-Dijon, Dijon, França, em 1090. Era filho de um vassalo do duque de Borgonha, ingressou em 1112 no mosteiro de Citeaux (Cister), onde se tornou monge. Encarregado pelo abade S. Harding de encontrar um lugar para fundar um novo mosteiro, indicou Clairvaux (Claraval), que em pouco tempo, sob sua direção, tornou-se o mais importante centro monástico cisterciense, com numerosas ramificações em toda a França. Defensor de uma rigorosa reforma da Igreja baseada na volta à pobreza evangélica, ao trabalho manual e à oração, Bernardo de Claraval participou também dos conflituosos fatos históricos de sua época, dividido até o fim de sua vida entre contemplação e ação, dialética que percorre ainda a múltipla variedade dos seus escritos. Durante o cisma (1130) entre o antipapa Anacleto II e o papa Inocêncio II, tomou a decidida defesa deste último, acompanhando-o em suas viagens à França, Alemanha e Itália, granjeando-lhe a confiança e a adesão do rei da França, Luís VI, do rei da Inglaterra, Henrique I, e de outros governantes europeus. Lutou contra Arnaldo de Brescia, recusando-se a compartilhar o modo como este denunciava os males da Igreja, especialmente a riqueza do clero.
Quando um discípulo, Eugênio III, foi eleito papa, dirigiu a ele o tratado "De consideratione" (Da consideração), em cinco livros, sobre os métodos para governar a Igreja. Foi justamente Eugênio III quem confiou a Bernardo de Claraval a pregação da segunda cruzada, anunciada em 1146 e malograda dois anos depois. No plano doutrinal, Bernardo combateu Abelardo e Gilberto de la Porée, desenvolvendo com eles uma polêmica apaixonada, não desprovida de tons bruscos e violentos.
Bernardo faleceu em Claraval, 1153, foi canonizado pelo papa Alexandre III (1174), foi proclamado doutor da Igreja pelo papa Pio VIII, em 1830.
A teologia de Bernardo de Claraval, ligada à tradição e às fontes patrísticas, revela-se profundamente embebida de sentido bíblico. A Escritura é para ele a palavra de Deus vivo na Igreja, a história da revelação do amor de Deus em Cristo e, como tal, é mais objeto de oração do que de estudo. Derivam daí não apenas uma espécie de experiência religiosa da Bíblia, que o leva a uma compreensão vivida de tudo o que ela contém, mas sobretudo o pathos e a poesia presentes em seus numerosos comentários da Bíblia. Seu programa de vida espiritual pode ser caracterizado como um itinerário que leva do pecado à glória, do conhecimento de si ao retorno a Deus: um "retorno a Deus" que se realiza a partir da humildade, ou antes do reconhecimento da própria miséria e pobreza.
Espírito contemplativo dos mais originais, Bernardo de Claraval é considerado o doutor do monaquismo cisterciense (Doutor Melífluo), do qual estabeleceu em fórmulas definitivas o ideal de vida que viria a progredir tanto nos séculos seguintes. Dentre suas obras, devem ser lembradas sobretudo os "Sermones" (Sermões) e os tratados "De diligendo Deo" (Do amor divino) e "De gradibus humilitatis et superbiae" (Graus da humildade e da soberba), além de um copioso epistolário com cerca de 500 cartas. A invocação da Salve Rainha, é fruto de sua profunda e apaixonada devoção a Nossa Senhora: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria".

PENSAMENTOS DE SÃO BERNARDO DE CLARAVAL

"Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração".

"Tudo o que temos de benefícios de Deus, nós o recebemos pela intercessão de Maria. E por que é assim? Porque Deus assim o quer".

"Quem somos nós, e qual a nossa força para resistirmos a tantas tentações? Certamente era isso que Deus queria: que nós, vendo a nossa insuficiência e a falta de auxílio, recorressemos com toda humildade à sua misericórdia".

"Maria recebeu de Deus uma dupla plenitude de graça. A primeira foi o Verbo eterno feito homem em suas puríssimas entranhas. A segunda é a plenitude das graças que, por intermédio desta divina Mãe, recebemos de Deus".

"O avarento está sempre faminto como um mendigo, nunca chega a ficar satisfeito com os bens que deseja. O pobre, como senhor de tudo, os despreza, pois não deseja nada".

"A oração controla nossos afetos e dirige nossas ações para Deus"

"Não consideres tanto o que sofres, mas o que Jesus sofreu por ti".

"O que é Deus? Ele é ao mesmo tempo comprimento, largura, altura e profundidade... Esse comprimento, o que é ele? A eternidade, pois ela é tão longa que não tem limites seja quanto ao lugar, seja quanto ao tempo. É Deus também largura? E essa largura, que é ela senão a caridade que se estende até o infinito? Deus é altura e profundidade; e por essa altura deveis entender seu poder; e por profundeza, sua sabedoria. Ó sabedoria cheia de poder que chega a todos os recantos com força. Ó poder cheio de sabedoria que tudo dispõe com doçura"

"Os clérigos que estudam por puro amor da ciência: é uma curiosidade ignominiosa; outros o fazem para alardear um renome de sábios: é uma vaidade vergonhosa... outros ainda estudam e vendem seu saber em troca de dinheiro e honras: é um tráfico vergonhoso. Mas há também os que estudam para edificar seu próximo: é uma obra de caridade; outros, finalmente, para edificar a simesmos: é uma atitude de prudência..."

"Se a pobreza não fosse um grande bem, Jesus Cristo não teria escolhido para si, nem a teria deixado em herança para os seus preferidos".

"Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece em participar devotamente de uma só Missa do que com distribuir todas as riquezas aos pobres e peregrinar toda a terra"

"Amo porque amo, amo para amar. Grande coisa é o amor, contanto que vá a seu princípio, volte à sua origem, mergulhe em sua fonte, sempre beba donde corre sem cessar".

"Deus é sabedoria e quer ser amado não só suave mas também sapientemente... Aliás com muita facilidade o espírito do erro zombará do teu zelo, se desprezares a ciência; nem o astuto inimigo tem instrumento mais eficaz para arrancar do coração o amor, do que conseguir que no mesmo amor se ande incautamente, e não com a razão"

"O servo de Maria não pode perecer".

"Maria é a onipotência suplicante".

"Quem não medita não julga com severidade a si mesmo, porque não se conhece"

"Há o espírito de sabedoria e de inteligência que, à maneira da abelha que produz cera e mel, tem com que acender a luz da ciência e infundir o sabor da graça. Não espere, portanto, receber o beijo, nem o que compreende a verdade, mas não a ama; nem o que a ama, mas não a compreende"

"Quando Deus ama não quer outra coisa senão ser amado, já que ama para ser amado; porque bem sabe que serão felizes pelo amor aqueles que O amarem".

"Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, Davi a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés".

"A Eucaristia é o amor que supera todos os outros amores no céu e na terra"

"Deus depositou em Maria a plenitude de todo bem".

"Onde há amor, não há canseira, mas gosto".

"São fortes as potências do inferno, entretanto, a oração é mais forte do que todos os demônios".
"Possuireis todas as coisas sobre as quais se estender a vossa confiança. Se esperais muito de Deus, Ele fará muito por vós. Se esperais pouco, Ele fará pouco".

"O amor do Esposo, ou melhor, o Esposo-Amor, somente procura a resposta do amor e a fidelidade. Seja permitido à amada corresponder ao amor! Por que a esposa e esposa do Amor não deveria amar? Por que não seria amado o Amor?"

"A causa para amar a Deus é o próprio Deus; a medida, é amá-lo sem medida".

"Oh! amor santo e casto! Oh! doce e suave afeto!... Tanto mais doce e suave, porque é todo divino o sentimento que se prova. Experimentá-lo é divinizar-se".

"É melhor para mim, Senhor, abraçar-te na tribulação e estar contigo na fornalha, do que estar sem ti até mesmo no Céu".

"Que faria a ciência sem o amor? Envaideceria. Que faria o amor sem a ciência? Erraria".

"Por vós, Maria, temos acesso ao Filho, por vós que achaste a graça, Mãe da Salvação, para que por vós nos receba Aquele que por vós nos foi dado".

"Da cruz e das chagas do nosso Redentor sai um grito para nos fazer entender o amor que Ele nos tem".

"Busquemos a graça, mas busquemos por intermédio de Maria! Por ela acha-se o que se busca e não se pode ser desatendido".

"Todo o nosso mérito consiste em confiarmos plenamente em Deus".

"Nossa esperança não pode ser incerta, pois que ela se apóia nas promessas divinas".

"Com a oração a alma consegue o auxílio divino, diante do qual desaparece todo o poder das criaturas".

"Existe indubitavelmente uma espantosa analogia entre o azeite e o nome do Amado, pelo que a comparação apresentada pelo Espirito Santo não é arbitrária. A não ser que possais sugerir algo de melhor, afirmarei que o nome de Jesus possui semelhança com o azeite na tripla utilidade deste último, nomeadamente, para iluminar, na alimentação e como lenitivo. Mantém a chama, alimenta o corpo, alivia a dor. É luz, alimento e medicina. Observai como as mesmas propriedades podem ser encontradas no nome do noivo divino. Quando pronunciado fornece luz; quando meditado, alimenta; quando invocado, serena e abranda".

"Deus quis que não recebêssemos nada que não passe pelas mãos de Maria"

"A vista ofuscada pela raiva não enxerga direito".

"Quando estou dividido em mim mesmo é porque não estou unido com Deus".

"Quando se vê uma pessoa perturbada, a causa da perturbação não é outra coisa senão a incapacidade de satisfazer a própria vontade".

"Não é a pobreza que é considerada virtude, mas o amor à pobreza".

"Ninguém tenha em pouca conta a oração, porquanto Deus não a tem em pouca conta; pois Ele ou dá o que pedimos, ou dá o que deve ser-nos mais útil".

"Tal é a vontade de Deus, que quis que tenhamos tudo por Maria".

"Toda alma que ama a Deus, torna-se sua esposa".

"A humilhação nos leva à humildade, assim como a paciência à paz e o estudo à ciência. Quereis experimentar se vossa humildade é verdadeira, até onde vai, se adianta ou recua? As humilhações vos fornecerão o meio".

"Quando a caridade vem e é perfeita, realiza a união espiritual, e serão dois (Deus e alma) não em uma só carne mas em um só espírito, tal como diz o apóstolo: 'Quem se achega a Deus torna-se um só espírito com Ele' (I Cor 6,17). Se ama perfeitamente, a alma está desposada com Deus. Amor mútuo, íntimo, válido, que não vive em uma só carne, mas que une em um só espírito, e de dois faz um só".

"Poderíamos definir a humildade assim: 'É uma virtude que estimula o homem a menosprezar-se ante a clara verdade de seu próprio conhecimento'".

"Tu encontrarás mais coisas nas florestas do que nos livros; as árvores e as pedras te ensinarão mais do que qualquer mestre te poderá dizer".

"Amemos e seremos amados. Naqueles que amamos encontraremos repouso, e o mesmo repouso ofereceremos a todos os que amamos. Amar em Deus é ter caridade; procurar ser amado por Deus é servir à caridade".

"Só nos casos de confiança o Senhor deita o azeite de sua misericórdia".

"Quereis um advogado junto a Jesus? Recorrei a Maria, pois nela não há senão pura compaixão pelos males alheios. Pura não só porque ela é imaculada, mas porque nela só existe compaixão pura e simples. Digo-o sem hesitar: Maria será ouvida devido à consideração que lhe é devida. O Filho ouvirá a Mãe, e o Pai, seu Filho. Eis, pois, a escada dos pecadores, minha absoluta confiança; eis todo o fundamento de minha esperança".

"'Senhor, que queres que eu faça?' (pergunta Paulo). É esta certamente a forma de uma perfeita conversão. Quão poucos se ajustam a esta forma de perfeita obediência que, de tal modo tenham abdicado à vontade-própria que nem sequer mais tenham seu próprio coração e a toda hora se perguntem, não o que eles querem, mas o que o Senhor quer".

"Que união feliz! Que união feliz, se já a experimentaste! Bem a conhecia, por experiência, o Salmista ao exclamar: ' Minha felicidade, ó Deus, é estar junto de Ti' (Sl 72,28). Sim, é muito bom se te unes a Deus com todo o teu ser. E quem então adere tão perfeitamente a Deus? Aquele que, habitando em Deus, sendo amado por Deus, atrai Deus a si com um amor recíproco".

"O amor não busca outro motivo e nenhum fruto fora de si; ele é seu próprio fruto, seu próprio deleite".

"Ser deificado é tornar-se caridade porque Deus é caridade; por isso todos os esforços da alma devem ter como alvo a caridade. A caridade dá a visão de Deus e a semelhança a Deus".

"Recorre a Maria! Sem a menor dúvida eu digo, certamente o Filho atenderá sua Mãe".

"Para chegarmos à perfeição temos necessidade da meditação e da petição; pela meditação vemos o que nos falta; pela súplica recebemos o que nos é necessário".

"Quem recorreu à Vossa proteção e foi por Vós desamparado, ó Maria?"

"Desapareça a vontade própria e não haverá inferno".

"Se os homens fizessem guerra à vontade própria, ninguém se condenaria".

"Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria. Que ela não se afaste dos teus lábios, não se afaste de teu coração".

"Não há música mais suave, palavra mais jubilosa, pensamento mais doce que Jesus, Filho de Deus!".

"Não se poderiam encontrar palavras mais suaves para exprimir as doces e recíprocas relações que se dão entre Deus e a alma runida a seu corpo ressuscitado, que as de esposo e esposa. Como estes possuem tudo em comum, nada de particular, nada de dividido, ambos têm uma herança, uma casa, uma mesa, um quarto conjugal, um mesmo corpo".

JOÃO CLÍMACO (580-650)

São João Clímaco, foi o maior dos monges do Monte Sinai. João nasceu na Palestina, por volta do ano 580.

De grande formação literária e religiosa, entre os 18 e 20 anos decidiu-se pelo deserto e viajou para o Monte Sinai, tornando-se discípulo de um venerável ancião, Martírio.

Isso aconteceu depois de renunciar à fortuna da família e a uma posição social promissora. Preferiu um cotidiano feito de oração, jejum continuado, trabalho duro e estudos profundos. Só descia ao vale para recolher frutas e raízes para sua parca alimentação e só se reunia aos demais monges nos fins de semana, para um culto coletivo.

Sua fama se espalhou e, logo, João foi eleito por unanimidade abade geral de todos os eremitas da serra do Monte Sinai.

Dele se conserva um livro que teve ampla divulgação na idade média, "Escada do Paraíso". Livro que lhe trouxe também o sobrenome Clímax que, em grego, significa "escada". A Escada é um resumo da vida espiritual, concebida para os solitários e contemplativos. Para Clímaco, a oração é a mais alta expressão da vida solitária; ela se desenvolve pela eliminação das imagens e dos pensamentos. Daí a necessidade da 'monologia', isto é, a invocação curta, de uma só palavra, incansavelmente repetida, que paralisa a dispersão do espírito. Essa repetição deve assimilar-se com a respiração.

João Clímaco faleceu por volta do ano 650.

PENSAMENTOS DE JOÃO CLÍMACO

"O verdadeiro monge: o olhar da alma, imóvel; o sentido corporal, inabalável... uma luz que não se apaga aos olhos do coração"

"Aqueles cujo espírito aprendeu a orar, na verdade falam ao Senhor face a face, como os que falam ao ouvido do imperador; aqueles cuja boca ora, fazem lembrar os que se prostram diante do imperador, na presença de toda corte. Os que vivem no mundo, são os que dirigem sua súplica ao imperador, na balbúrdia de todo povo"

"Que vossa oração ignore toda multiplicidade: uma única palavra bastou ao Publicano e ao filho pródigo para obter o perdão"

"O grande herói da sublime e perfeita oração diz: 'prefiro dizer cincopalavras com a minha inteligência...'(1Cor 14,19). As crianças pequenas não tem idéia disso: imperfeito como somos, com a qualidade também nos é necessaria a quantidade. A segunda consegue para nós a primeira..."

"A solidão do corpo é a ciência e a paz da conduta e dos sentidos; a solidão da alma, a ciência dos pensamentos e um espírito inviolável. O amigo da solidão é um espírito de sentinela, valente e inflexível, sem sono, à porta do coração, para derrubar e matar os que se aproximam".

"O hesicasta é quem aspira a limitar o incorporal numa morada de carne. O gato aspira o ratinho; o espírito do hesicasta espreita o ratinho invisível".

"O monge tem necessidade de grande vigilância e de um espírito isento de agitação. O cenobita tem frequentemente o apoio de um irmão; o monge, o de um anjo".

"Fechai a porta da cela a vosso corpo, a porta dos lábios às palavras, a porta interior aos sentido".

"A obra da solidão (hesychia) é uma despreocupação total por todas as coisas, razoáveis ou não".

"Basta um fio de cabelo para embaralhar a vista; basta uma simples preocupação para dissipar a solidão (hesychia), pois a solidão é despojamento dos pensamentos e renúncia às preocupações razoáveis".

"Quem possui verdadeiramente a paz, não se preocupa mais com o próprio corpo".

"Quem quer apresentar a Deus um espírito purificado, e se deixa perturbar pelas preocupações, assemelha-se a alguém que tivesse entravado fortemente as pernas e pretendesse correr".

"É grande a utilidade da leitura para esclarecer e recolher o espírito".

"Procurai vossas luzes sobre a ciência da santidade, mais nos trabalhos do que nos livros".

"Quem se sente diante de Deus, do fundo do coração, será como uma coluna imóvel durante a oração".

"O monge que vela é um pescador de pensamentos; sabe distingui-los sem dificuldade, na calma da noite, e apanha-los".

"Nada de rebuscamento nas palavras de vossa oração: quantas vezes os balbucios simples e monótonos das crianças fazem o pai ceder!"

"Não vos entregueis a longos discursos, para que vosso espírito não se dissipe na procura das palavras. Uma única palavra do Publicano comoveu a miseriocórdia de Deus; uma única palavra cheia de fé salvou o Ladrão".

"A prolixidade na oração frequentemente enche o espírito de imagens e o dissipa, enquanto muitas vezes o efeito de uma única palavra (monologia) é recolhê-lo".

"Senti-vos consolados e enternecidos por uma palavra da oração? Parai nessa palavra; isso quer dizer que o nosso anjo da guarda então ora conosco".

"Nada de segurança demais, mesmo tento conseguido a pureza; mas, sim, uma grande humildade, e sentireis então maior confiança".

"Quando vos tiverdes revestido da doçura da ausência de ira, não vos será mais muito custoso libertar vosso espírito do cativeiro".

"Trabalhai para elevar o vosso pensamento, ou melhor, para recolhê-lo nas palavras de vossa oração; se a fraqueza da inância o faz cair, levantai-o".

"O primeiro degrau da oração consiste em expulsar, por meio de um pensamento (ou uma palavra) simples e fixo (monologicamente), as sugestões, no momento mesmo em que se manifestam. O segundo, em conservar nosso pensamento unicamente no que dizemos e pensamos".

"Ressuscitados do amor pelo mundo e pelos prazeres, afastai as preocupações, despojai-vos dos pensamentos, renunciai ao corpo, uma vez que a oração nada mais é que um exílio do mundo visível e invisível".

"Não se aprende a ver; é um efeito da natureza. A beleza da oração também não se aprende através do ensinamento. Ela tem em si própria o seu mestre; Deus 'que ensina ao homem o saber' (Sl 94,10) dá a oração e abençoa os anos dos justos".

EVÁGRIO PÔNTICO (345-397)

Evágrio foi um monge, nascido por volta de 345, originário da Capadócia, em Ibora, no Ponto, e por isso ele é chamado de Pôntico. Passou dezesseis anos de sua vida no deserto do Egito, como anacoreta. Foi discípulo e amigo de São Gregório Nazianzeno. Evágrio conheceu bem cedo os três capadócios: São Basílio, São Gregório de Nissa e São Gregório de Nazianzo, sendo ordenado diácono por este último. Herdeiro dos grandes Padres Alexandrinos, Clemente e Orígenes, ele conduziu uma das grandes correntes da espiritualidade bizantina. Foram seus herdeiros, João Clímaco, Máximo, o Confessor, Simeão o Novo Teólogo, os Hesicastas...
Evágrio foi implicado na condenação do origenismo em 553; alguns acham incômodo citá-lo, no entanto, ele penetra e está presente em toda parte. Para Evágrio a ascenção espiritual consiste em contemplar a Deus em si mesmo, de modo que se vê a Deus como num espelho. O caminho consiste em despojar-se dos pensamentos apaixonados, depois, mesmo dos pensamentos simples, até a completa nudez de imagens e conceitos.
Evágrio morreu por volta de 397, deixando inúmeras obras sobre a oração, a vida monástica e ascética.

PENSAMENTOS DE EVÁGRIO PÔNTICO

"Não imagines possuir a Divindade em ti, quando oras, nem deixes tua inteligência aceitar a marca de uma forma qualquer; mantém-te como imaterial diante do Imaterial e compreenderás"

"Não poderias possuir a oração pura, estando perturbado com coisas materiais e agitado por inquietações contínuas, pois a oração é abandono dos pensamentos"

"A oração é produto da doçura e da ausência de ira"

"Esforça-te por manter teu intelecto surdo e mudo durante a oração: assim poderás orar"

"Se oras verdadeiramente, sentirás uma grande segurança: os anjos te escoltarão como a Daniel e te iluminarão sobre as razões dos seres"

"Se queres orar como convém não entristeças nenhuma alma; senão, corres em vão"

"Bem-aventurada a inteligência que, no momento da oração, torna-se imaterial e despojada de tudo"

"A oração é uma ascenção da inteligência para Deus"

"A oração é a atividade que convém à dignidade da inteligência; é a aplicação mais admirável e mais completa desta"

"Se és teólogo, vais orar verdadeiramente; e se oras verdadeiramente, és teólogo"

"A salmodia depende da sabedoria multiforme; a oração é o prelúdio do conhecimento imaterial e uniforme"

"Quanto mais perto estiver de Deus, tanto melhor será o homem"

"A oração é fruto da alegria e do reconhecimento"

"Enquanto ainda tens atenção para o que provém do corpo; enquanto tua inteligência considera os atrativos externos, ainda não viste o lugar da oração; estás mesmo longe do caminho abençoado que conduz a ele"

"O corpo tem o pão por alimento; a alma, a virtude; a inteligência, a oração espiritual"

"Na hora de orar, encontrarás o fruto de todo sofrimento aceito com sabedoria"

"Os sentimentos mal orientados atrapalham a oração"

"Feliz o espírito livre de qualquer forma durante a oração"

"O rancor cega a faculdade mestra de quem ora e derrama-lhe trevas sobre as orações."

"Aspira a ver a face do Pai, que está no céu: não procure, por nada deste mundo, perceber forma ou rosto durante a oração"

"Pois, quando em tua oração tiveres conseguido ultrapassar qualquer outra alegria, é que finalmente, em toda verdade, terás encontrado a oração"

"Armado contra a ira, não admitas jamais a cobiça, pois é a cobiça que alimenta a ira, esta por sua vez, turva os olhos da inteligência e destrói assim, o estado de oração"

"A oração é uma conversa da inteligência com Deus: que estado não é, pois, necessário, para essa tensão sem retorno, para ir a seu Senhor e conversar com Ele, sem nenhum intermediário?"

"Mantém-te corajoso e ora com energia; afasta as preocupações e e as reflexões que se apresentarem, pois elas te perturbam e te agitam, debilitando o teu vigor"

"Se queres orar dignamente, renuncia-te a todo instante; se suportas toda sorte de provações, resigna-te sabiamente por amor da oração"

"Não te contentes de orar nas atitudes exeriores, mas leva tua inteligência ao sentimento da oração espiritual, com grande temor"

"Não ores para que tuas vontades se cumpram: elas não concordam necessariamente com a vontade de Deus. Ora, sim, segundo o ensinamento recebido, dizendo: 'que vossa vontade se cumpra em mim'. Em tudo, pede-lhe que se faça a sua vontade, pois Ele quer o bem e o benefício para tua alma; tu, porém, não é isso necessariamente que procuras"

"A oração sem distração é a intelecção mais alta da inteligência"

"Orando com teus irmãos ou orando só, esforça-te por orar, não por hábito, mas com sentimento"

"Quem ama a Deus conversa incessantemente com Ele, como com um Pai, despojando-se de todo pensamento apaixonado"

"Quem ora em espírito e em verdade, não tira mais das criaturas os louvores que dá ao Criador: é do próprio Deus que ele louva Deus"

"O rancor cega a faculdade mestra de quem ora e derrama-lhe trevas sobre asorações"

"A oração é a exclusão da tristeza e do desalento"

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

RICHARD ROLLE (1300-1349)

Richard Rolle, foi grande místico cristão, nasceu em 1300, em Thornton, Yorkshire, Inglaterra; e faleceu em Hampole, 1349, durante a Peste Negra. Por volta dos 20 anos ele deixou a universidade e iniciou uma vida de eremita. Ele escrevia poemas e meditações apaixonadas sobre a Paixão e descrevia a experiência mística através de hipérboles como “o fogo do amor queimando em sua alma”. Segundo ele mesmo, teria alcançado o estágio o mais elevado do seu êxtase quatro anos e três meses após o começo de sua conversão. Richard não pertenceu a nenhuma ordem e não reconheceu nenhuma regra. Depois vagueou de lugar a lugar, descansando quando encontrava amigos para fornecer para ele o que precisava.

Richard Rolle conta como, certo dia, orando sozinho na capela, teve uma experiência profunda com Deus. Em um dado momento foi atraído por uma intensa consciência do amor de Deus. Uma doçura indescritível. A partir de então, sua vida transbordou de lirismo e de amor por Cristo. Seu amor por Cristo estava “em ansiar cada vez mais".

Richard Rolle foi um dos primeiros escritores religiosos a escrever em língua vernácula; escreveu em latim e inglês. Sua obra mais bem conhecida seja o De Incendio Amoris, em grande parte de cartáter autobiográfico. Escreveu ainda: Meditação sobre a Paixão, A Forma da Vida Perfeita, A Emenda da Vida.

Richard Rolle insiste muito no desapego do mundo, no combate contra os obstáculos da vida espiritual e sobretudo na "iluminação" e no abraço de amor.

Seus escritos foram largamente influentes e foi venerado no mínimo por 300 anos após sua morte. Faleceu no ano de 1349, vítima da peste negra.

PENSAMENTOS DE RICHARD ROLLE

"Eu te peço, Senhor Jesus, que desenvolvas em mim o teu amor, um anseio imensurável para contigo, uma afeição sem limites, um desejo irrefreável, um fervor quelança ao vento toda timidez! Quanto mais sincero é o nosso amor por ti, mais exigente ele se torna. A razão não o controla, o medo não o faz tremer, o julgamento sábio não o limita. Amém."

"A contemplação é um maravilhoso deleite do amor de Deus, e essa alegria é uma forma de venerar a Deus que não pode ser descrita. E essa incrível veneração ocorre dentro da alma, e em virtude da transbordante alegria e doçura, ela sobe à boca e, então, o coração e a voz combinam-se em uníssono, e corpo e alma comprazem-se no Deus Vivo."

"Verdadeiramente Deus é de infinita grandeza, mais do que podemos imaginar... irreconhecível pelas coisas criadas; e jamais poderá ser por nós compreendido como Ele é, em si mesmo... Mas mesmo aqui e agora, sempre que o coração busca a Deus, ele é capacitado a receber a luz incriada e, inspirado e cheio dos dons do Espírito Santo, experimenta as alegrias do Céu."

"O meu lado está aberto: agarra o meu coração. Corre, abraça-te ao meu pescoço: ofereço-te o meu beijo. Eu adquiri-te como minha parte da herança, por forma a que nenhum outro te tenha em seu poder. Entrega-te todo a mim que me entreguei totalmente por Ti”.

"Na cruz, Cristo chama com grandes gritos... Ele oferece a paz e dirige-se a ti, desejando ver-te abraçar o amor..."

"Oh bom Jesus, Tu has sujeitado meu coração ao pensamento do Teu Nome, e agora não posso senão cantar-Te: tem por tanto misericordia de mim, fazendo perfeito o que Tu has ordenado"

“Todo amor que não se dirige a Deus é um amor mau e converte em maus a seus possuidores também. E esta é a razão do porque os que amam o esplendor deste mundo adquirem fogo de uma classe diferente, e se separam ainda mais do fogo do amor divino”.

“As pessoas se convertem no que amam.”

“Todos os que vivem esta vida, sabem que não podemos encher-nos do amor que pertence a eternidade, ou ser ungidos com o doce óleo do céu, a menos que em verdade nos convertamos a Deus”.

“Ó Pai que governas as almas silenciosas, concede a luz que sacia os olhos de doçura. Assim verei o caminho pelo qual fugir das vaidades, e serei arrebatado pelo fogo interior do amor a Cristo, a quem desejo com todas as forças de meu coração”.

“Tudo o que desejo encontro em ti, ó Cristo! Não vejo o que alguém poderia procurar fora de tua face. Desde o dia em que atraíste meu coração para ti e em que meu pensamento se voltou para teu amor, tu és minha única ternura, a exultação de minha alma, a alegria de meu espírito!”

“Tua beleza, ó Bem-amado, ultrapassa tudo o que o homem pode imaginar; ele não pode exprimir tua glória, nem sequer quando, arrebatado aos céus, ele faz jorrar de si abundância de louvores!”

MESTRE ECKHART (1260-1328)

Um dos mais famosos místicos da Idade Média, neste momento em plena fase de "redescoberta", Eckhart nasceu em Hochheim, Alemanha, em 1260. Aos 15 anos entrou para a ordem dos dominicanos. Foi vigário da Turíngia e depois provincial dos dominicanos na Saxônia. Nesse período, envolveu-se em intensos debates teológicos, divergindo muito dos franciscanos. A partir de 1314, morando em Estrasburgo, pregou para um grupo de freiras contemplativas. A audácia e amplitude do seu pensamento (com vigorosas incursões pela metafísica), aliadas às disputas teológicas que caracterizaram o período, provocaram uma bula de 1329 (quando ele já tinha falecido - Eckhart faleceu em 1328) em que o papa João XXII (segundo se diz, muito a contragosto) condenava 28 conceitos extraídos de suas obras (17 como heréticos e 11 como mal sonantes ou temerários). Antes que isso acontecesse, Eckhart já tinha apresentado, publicamente, a sua retratação por quaisquer impropriedades que o Vaticano viesse a encontrar em seus textos.
Muitos místicos seguiram e admiraram Mestre Eckhart, entre eles: Johannes Tauler, o beato Henrique Suso, santa Juliana de Norwich, o beato Ruysbroeck, Walter Hilton e o cardeal Nicolau de Cusa; mais tarde, foram influenciados por ele, santa Teresa de Ávila e são João da Cruz.

PENSAMENTOS DE MESTRE ECKHART

Sobre a maneira mais poderosa de rezar:

"A maneira mais poderosa de rezar, aquela que é capaz de obter qualquer coisa e é mais meritória, é a que deriva de uma mente desimpedida. Quanto mais desimpedida a mente, mais poderosa, útil e perfeita será a oração. O que é uma mente desimpedida? É aquela que não é perturbada nem alterada por nada, que não se apegou a qualquer modo especial de vida ou de devoção, e que não procura o seu próprio bem em nada, mas que está completamente imersa na preciosa vontadede Deus, tendo saído daquilo que lhe é próprio. Não há obra nenhuma que homens e mulheres possam executar, por mais pequena que seja, que não extraia daí o seu poder e a sua força".

De como a tentação de pecar sempre ajuda no nosso progresso espiritual:

"Você deveria saber que o impulso para o pecado sempre traz grande benefício para uma pessoa íntegra. Imagine você dois indivíduos, sendo um deles o tipo de pessoa que experimenta pouca ou nenhuma tentação, enquanto o outro é muito perturbado por isso. Neste último, a simples presença de certas realidades atinge o seu eu exterior, de modo que ele é levado à cólera, à vaidade ou à sensualidade, de acordo com o estímulo que recebe. Mas com seu discernimento mais alto, ele permanece firme e imóvel, decidido a não ceder à sua fraqueza, seja ela qual for. Talvez se trate de uma fraqueza enraizada no seu próprio temperamento, assim como algumas pessoas são irascíveis, ou vaidosas, ou qualquer outra coisa, mas não desejam cometer esses pecados. Estas são pessoas muito mais dignas de louvor, e merecendo maior recompensa, do que o primeiro tipo, pois a perfeição da virtude nasce na luta, e são Paulo diz que "a virtude se aperfeiçoa na fraqueza"(IICoríntios 12,19). Ser tentado não é defeito, mas sim consentir no pecado. De fato, se alguém que está na plena posse de suas faculdades tivesse o poder de fazer com que a tentação não existisse, essa pessoa deixaria de exercitar aquele poder, pois sem a tentação nós não seríamos testados em todas as coisas e em tudo o que nós fazemos, inconscientes do perigo de certas coisas, e sem a honra da batalha e da vitória. A tentação nos faz trabalhar mais duramente na prática da virtude, e é como um açoite que nos ensina a vigilância e a prudência; pois quanto maisfraca é uma pessoa, tanto mais ela deveria armar-se com a força que conduz à vitória; pois a virtude, como o vício, é uma questão de vontade".

"Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus"

"A alma deve ansiar por Deus a fim de se inflamar com o amor Dele; mas,se ela ainda nao puder ansiar pelo anseio, então deve ansiar pelo anseio. O anseio pelo anseio também vem de Deus"

"Se te amas, ama a todos os demais como a ti mesmo. Enquanto amares outra pessoa menos do que amas a ti mesmo, não conseguirás realmente amar a ti mesmo, mas se a todos amares igualmente, sem exclusão de ti, ama-los-ás como uma só pessoa, e essa pessoa é tanto Deus quanto homem"

"Embora o homem não possa saber o que Deus é, mesmo assim ele pode estar sempre bem consciente do que Deus não é... Assim, satisfeita com nada, a mente clama pelo mais elevado de todos os bens"

"Devemos ser um só Filho que o Pai gerou eternamente. Quando o Pai gerou todas as criaturas, gerou-me a mim e eu emanei com todas as criaturas e permaneci apesar disto dentro do Pai".

"Mudei-me portanto em Deus e Ele me fez um consigo, e assim, pelo Deus vivo, não há distinção entre nós... Algumas pessoas imaginam que vão ver Deus, que verão Deus como se Ele estivesse além e elas ali, mas não é assim. Deus e eu: somos um. Conhecendo Deus, tomo-o para mim. Amando a Deus, penetro-o"

"O princípio não tem outra razão que o fim, pois no fim último repousa tudo que jamais foi dotado de razão. O fim último do ser são as trevas ou o não conhecimento da divindade escondida, onde a luz ilumina .... Aquele que é sem nome, que é a negação de todos osnomes, e jamais teve um nome. .... No fundo da alma, o Fundo de Deus e o fundo da alma sendo senão um só e mesmo fundo. Quão mais Te procuramos, menos Te encontramos. Tu deverás procurá-lo de forma que jamais o encontre; se tu não o procurares, encontrá-lo-á"

"Bondade e justiça são um vestido que envolve Deus. Tirem de Deus tudo o que o reveste, e tomem-no puro em suas roupas íntimas, quando Ele, descoberto e desnudo, está em si mesmo"

"Que Deus seja um, isto é a divindade completa de Deus... Se assim não fora, Deus não seria Deus... Todo número depende do um, mas o um não depende de ninguém"

"Deus não está em nenhum lugar. O menor de Deus repleta todas as criaturas e sua grandeza não se encontra em nenhum lugar".

"No mesmo movimento em que o Pai gera o Filho Unigênito em mim, gero-o eu de volta para dentro do Pai".

"Quando o homem libera e põe a descoberto a Luz divina que Deus por sua natureza criou nele, então se revela a Imagem de Deus nele. Ao nascer se conhece a revelação de Deus. Dizer que o Filho nasceu do Pai significa que o Pai, em forma paterna, revela seu Mistério a ele. Por isso: quanto mais e com maior claridade o homem põe a descoberto a imagem de Deus, com tanto mais claridade Deus nasce nele. O nascer de Deus se entende assim: o Pai põe a descoberto a Imagem e brilha no homem".

"Na máxima disponibilidade (desprendimento) o conhecimento é sem conhecimento, o amor sem amor e a luz escuridão... Pobres de espírito são aqueles que entregaram todas as coisas a Deus, assim como Ele as possuía quando ainda não éramos".

"Se um homem deixou um reino ou mesmo todas as coisas e se não tiver deixado a si mesmo, não terá, na verdade, deixado nada. Se deixar a si mesmo, embora fique na honra e na riqueza ou continue a possuir o que quer que seja, o homem deixou efetivamente tudo".

"Nada faz mais verdadeiro o homem do que a renúncia da própria vontade. Sem esta renúncia em todas as coisas, não fazemos nada diante de Deus".

"A gente não precisa pensar tanto no que deve fazer; deve-se antes pensar no que se deve ser. Se alguém é bom, também boas serão suas obras... As obras não nos santificam. Nós é que santificamos as obras".

"O homem não deve se contentar com um Deus pensado, pois quando o pensamento passa, passa também Deus. Deve-se antes possuir um Deus essencial que de muito ultrapassa os pensamentos dos homens e a todas as criaturas. Este Deus não passa".

"Se alguém está como esteve Paulo em arrebatamento místico e sabe que algum doente deseja um prato de sopa, é melhor deixar o arrebatamento e ir atender ao enfermo necessitado".

"Na contemplação você se serve a você mesmo, nas boas obras serve a muita gente".

"Uma pessoa que dominou sua vida vale mais do que mil pessoas que dominaram somente o conteúdo de livros. Ninguém pode conseguir nada na vida sem Deus. Se eu estivese à procura de um mestre para aprender, eu deveria ir a Paris ou frequentar as faculdades onde se fazem os mais altos estudos. Mas se eu estiver interessado na perfeição da vida, eles lá nada me poderão informar.Aonde, pois, deveria eu ir? A alguém que tem uma natureza pura e livre e a nenhum outro lugar: nele eu encontraria a resposta para aquilo que tão ansiosamente estou buscando. Homens, por que buscais ossos entre os mortos? Por que não buscais a vida eterna nos lugares santos da vida? Os mortos nada podem dar ou tomar. Se um anjo tivesse que buscar Deus fora de Deus, ele obuscaria numa criatura pura, livre, plenamente disponível e não em outro lugar. A perfeição depende somente do acolher a pobreza, a miséria, as durezas, os desapontamentos e tudo o que vier no decurso da vida, livremente, avidamente até a morte, como se a pessoa estivesse preparadapara tal. Portanto, sem emocionar-se nem sequer perguntar porquê".

"Ele é a riqueza em profusão porque é um. Ele é o primeiro e o supremo porque é um. Por isso o Um penetra todas e cada uma das coisas e permanece um, unificando o separado. Por isso é que seis não são duas vezes três, mas seis vezes um".

"Um significa aquilo ao qual não se pode acrescentar nada... Um é a negação da negação. Todas as criaturas carregam uma negação em si; uma nega a outra. Um anjo tem em si uma negação pelo fato de não poder ser outro anjo. Deus, porém, é a negação da negação. Ele é um e nega todos os outros, pois nada existe fora de Deus. Todas as criaturas são em Deus e são sua própria divindade e isto significa aplenitude".

Comentando o prólogo do evangelho de S. João ("no princípio"):

"Com esta palavra nos é dado compreender que nós somos um único Filho que o Pai gerou eternamente da escondida escuridão da eterna escondidade, mas permanecendo no primeiro princípio da primeira pureza que lá é a plenitude única de toda a pureza. Aqui eu descansei e dormi eternamente no secreto conhecimento do Pai eterno, ficando dentro e não sendo ainda proferido. Desta pureza Ele me gerou eternamente como o seu Filho unigênito, na imagem de sua eterna paternidade, para que eu seja Pai e gere aquele do qual eu fui gerado"

"Falei muitas vezes de uma luz que está na alma, de uma luz incriada e incriável... Assim posso em verdade dizer 'outra vez' que essa luz tem mais unidade com Deus do que com qualquer outra força ' da alma', com a qual está em unidade de ser. Pois deveis saber que essa luz, no ser de minha alma, não é mais nobre do que a ínfima e a mais grosseira das forças, como o ouvir ou o ver ou qualquer outra força, simples. Enquanto se tomam as forças 'da alma' no ser, elas sao todas um e igulamente nobres. Tomando-se, porém,essas forças no seu operar, uma é muito mais nobre e elevada do que a outra".

"Uma imagem propriamente dita é uma emanação formal simples que transmite toda a essência nua e pura,… uma emanação a partir das profundidades do silêncio, excluindo tudo o que chega de fora. É uma forma de vida, como se estivéssemos a imaginar algo que inflasse por si próprio e em si próprio e depois fervesse sem ferver por fora nesta ocasião compreendida ".

"Quando o homem se une totalmente a Deus com amor, desliga-se das imagens, formado e transformado na conformidade divina na qual é um com Deus"

"O homem não tem necessidade de pedir a Deus, pelo contrário: pode exigir-lho, porque a altura da deidade só pode olhar o fundo da humildade, o homem humilde e Deus são um e não dois".

"Deus é como o sol. Aquilo que é o mais alto na sua profundidade sem fundo responde àquilo que é o mais baixo no fundo da humildade. O homem verdadeiramente humilde não tem necessidade de pedir a Deus; pode obrigar Deus, porque a altura da deidade só tem olhos para a profundidade da humildade"

A ORAÇÃO DE JESUS

A "Oração de Jesus" se tornou conhecida entre nós por um escritor russo desconhecido, que escreveu o "Peregrino Russo". O herói do livro, é um homem pobre que perde tudo o que possui devido a uma sequência de calamidades e parte para uma jornada, buscando aprender como "rezar incessantemente". Ele finalmente chega a um mosteiro onde aprende que orar não é uma ocupação da mente mas uma ocupação do coração. Lá ele aprende a rezar a "oração de Jesus" até que ela se torne a música de fundo em tudo o que ele fizer e onde quer que vá. Uma vez que a oraçao se torna parte de seu espírito, ele reza inconscientemente por todo o dia e alcança seu objetivo de "orar sem cessar".

Não precisamos ter esse objetivo de rezar incessantemente para nos beneficiarmos de um exercício como a Oração de Jesus. Há um pronunciado "efeito centralizador" com a oração. Ela nos aquieta e nos prepara para escutar a Deus. Direciona nossa atenção para além das necessidades de nossa vida diária neste mundo e nos recorda do outro, nos conectando com matérias mais profundas, capacitando-nos a relembrar quem somos e de Quem somos.A Oração de Jesus em si mesmo é a fórmula simples, "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende compaixão de mim, pecador", repetida incessantemente. Geralmente é associada com nossa respiração, de modo que ao inalarmos dizemos em voz alta ou silenciosamente, "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus", e ao exalarmos, "tende compaixão de mim, pecador".

Não há nada de mágico sobre essa fórmula particular, e ela pode ser modificada para satisfazer seu gosto ou estilo pessoal. Pode-se optar por qualquer fórmula que agrade e ao escolhê-la, ela vai funcionar do mesmo modo. Contudo, será melhor se for "rítmica", "ressonante" e "adequada". Algumas pessoas escolhem uma oração que se ajusta ao rítmo de seu passo enquanto caminham. Embora isso não seja necesário, algum rítmo é importante para fazer com que a oração seja "uma" conosco. Ressonância requer que a oração tenha suavidade e flua por si mesma. E "adequada" significa que estejamos confortáveis com a fórmula e não precisemos ficar procurando uma "melhor" a cada instante.
Abba Isaac disse: "A fórmula para contemplação consiste da constante repetição: "Senhor, apressai-vos em socorrer-me, O Deus socorrei-me sem demora" (Salmo 40,13).
Outras formas incluem, mas certamente não se limitam a:

. "Senhor Jesus."
. "Senhor Jesus Cristo."
. "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende compaixão de mim."
. "Senhor Jesus Cristo, tende compaixão de mim."
. "Senhor, tende compaixão, Cristo, tende compaixão, Senhor, tende compaixão."
. "Senhor, tende compaixão".

Podemos invocar o Nome de Jesus em diversos contextos, numa praia, no ônibus, numa fila, num parque, numa caminhada, ou solitários em casa... Cada pessoa há de encontrar a forma mais apropriada à sua oração individual. Contudo, qualquer que seja a forma usada, o coração e o centro da invocação devem ser o próprio santo Nome, a palavra Jesus. Aí reside toda a força da invocação.A invocação do Nome deve trazer Jesus à nossa mente. O Nome é o símbolo e o portador da pessoa de Cristo. De outra forma, a invocação do Nome seria mera idolatria verbal. "A letra mata mas o espírito vivifica" (2Cor3,6).

A presença de Jesus é o conteúdo real e a substância do Santo Nome. O Nome tanto significa a presença de Jesus, como traz sua realidade. Ao pronunciar o Nome, estamos invocando a presença de Nosso Senhor. "Prostrando-se, adoraram-no" (Mt 2,14). Pronunciar refletidamente o Nome de Jesus é conhecer que Nosso Senhor é tudo. "Por isso Deus o exaltou grandemente e lhe deu um Nome que está sobre todo o nome, de modo que ao Nome de Jesus se dobre todo o joelho" (Fl 2,8-10). "O teu nome é como um bálsamo derramado" (Ct 1,2).

HENRIQUE SUSO (1295-1366)

Henrique Suso nasceu na ilha de Constança, na Alemanha, no dia 21 de março de 1295, foi um dos principais representantes do movimento religioso, que floresceu na região do rio Reno, no início do século XIV. Religioso dominicano, escritor e místico, se tornou um dos teólogos alemães mais conhecidos, pela característica da singular doçura de sua espiritualidade e pela clareza do conceito transmitido de que a vida interior é acessível a todas as almas seguidoras da Paixão de Jesus Cristo.

Seu pai era um rico comerciante, não muito religioso, da nobre dinastia dos Berg, e sua mãe, uma senhora muito pia, era da tradicional família cristã dos Suese ou Suso, forma latina do nome. Henrique preferiu manter o sobrenome da mãe. Desde a infância foi educado pelos dominicanos, demonstrando sua vocação religiosa já nesta época. Aos treze anos, ingressou como noviço no convento de São Nicolau, desta Ordem, em Constança, período em que desenvolveu muito, sua espiritualidade.

Aos dezesseis anos, viveu um período de fé incerta, o qual superou através da somatória das penitências rigorosas com as orações contemplativas. Dois anos depois, coroou sua completa conversão, marcando com ferro em brasa o nome de Jesus, no lado esquerdo do peito. Isto ocorreu, após uma experiência mística, na qual, viu um anjo unindo o seu coração ao do Cristo. A partir de então, seu zelo se traduziu numa entrega espiritual mais prudente; Deus o fez compreender que a melhor mortificação consistia em aceitar com resignação as provas enviadas por Ele.

No convento dominicano em Constança, fez os estudos preparatórios, filosóficos e teológicos. Depois foi enviado para o Colégio Geral de Estrasburgo e finalmente para a universidade de Colônia, completar seus estudos sob a orientação de Mestre Eckhart. Ao invés de uma carreira brilhante eclesiástica, preferiu retornar para Constança, em 1329, como professor de Teologia no colégio dos dominicanos. Alí, durante os sete anos seguintes, escreveu suas obras mais importantes: o Livro da Sabedoria Eterna e o Livro da Verdade. Narrou com simplicidade e clareza os mistérios da alma, que desvendava através dos seus colóquios íntimos com Cristo, veiculados pelas orações silenciosas e experiências contemplativas. Nos seus escritos refere-se a Deus numa linguagem próxima a do amor dos namorados, plena de sensualidade.

Em 1336, Henrique sentiu que era hora de partir para o apostolado peregrino. Viajou por toda Alemanha, passando pela Suíça e Países Baixos, tornando-se um incansável pregador itinerante do nome de Cristo. Durante quatro anos, até 1943 foi o diretor geral do convento alemão de Turgovia. Depois foi transferido para o de Ulm, no qual permaneceu até morrer, em 25 de fevereiro de 1366.

Ele não foi sepultado no cemitério comum aos padres dominicanos, mas na cripta da igreja daquele convento. Até o final de 1531, sobre a sua lápide ardia uma chama atestando o seu culto. Depois seus restos mortais foram destruídos pelos protestantes, mas a sua lembrança se manteve e foram muitos os Santos que se inspiraram no seu exemplo para a busca da espiritualidade. O Papa Gregório XVI, beatificou Henrique Suso em 1831.

Suas principais obras incluem sua autobiografia A Vida do Servo, O Livro da Eterna Sabedoria, e O Livro da Verdade. Ficou conhecido como o trovador entre os místicos germânicos por suas visões e descrições metafóricas.

PENSAMENTOS DE HENRIQUE SUSO

"Meu propósito (...) não é informar o ignorante, mas reacender extintas chamas de fé e admoestar o indiferente, provocar a devoção no ímpio e agitar para uma virtude atenta aqueles que estavam deitados entorpecidos em seus sonhos sem sentido".

"O Senhor atendeu o desejo do meu coração - Abençoado entre os abençoados é aquele quenão encontra descanso e nem pureza até que repouse, ó Deus, no Senhor".

"É propício que eu ame o Senhor e, qualquer coisa que eu saiba ser Seu maior desejo, é aquilo que eu vou fazer".

"Nobre Senhor, faça com que o doce fruto do conhecimento brote dos agudos espinhos dos nossos infortúnios, para que possamos sofrer com mais paciência e sermos capazes de oferecer nossas provações para o Seu louvor e glória".

"Prefiro ser neste mundo o verme mais miserável da terra, pela vontade de Deus, do que um serafim no céu, pela minha própria vontade".

"Se estais doentes, regozijai-vos, porque o Senhor está pensando em vós".

"Na verdade, é tão grande e preciosa a graça de sofrer, que não a merecemos".

"Para o enfermo, a mais bela das ocupações deve ser a dos atos de resignação enquanto espera pacientemente o socorro do Céu".

"O sofrimento é o exercício mais salutar que Deus impõe à nossa alma e ao nosso corpo. É mais difícil sofrer com paciência e em silêncio do que fazer milagres, mesmo o de ressuscitar os mortos".

"Oh doce Nome! Que deves ser Tu no céu, quando teu Nome inspira tanto amor sobre a terra!"

"Ah, Sabedoria eterna, meu coração te recorda como, depois da última ceia, foste ao monte e foste coberto de suor sangrento por causa da ansiedade de teu amantíssimo Coração... Oh Senhor, teu Coração suportou tudo com amor terno. Oh Senhor, teu Coração, ardente de amor, deve inflamar o meu com amor".

"O ser de Deus é uma substância tão espiritual que os olhos mortais não a conseguem contemplar diretamente, mas podem vê-la através das suas obras; como diz São Paulo, as criaturas são um espelho que reflete Deus (Rom 1,20)."

FRANÇOIS FÉNELON (1651-1715)

François de Salignac de La Mothe-Fénelon nasceu em 1651, no castelo de Fénelon, na França, era descendente da alta nobreza. Entrou no seminário em 1672 e em 1695 foi eleito bispo. Escritor e orador francês. De família nobre, segue a carreira sacerdotal. É discípulo de Bossuet, que lhe retira a sua amizade a partir de 1688 por se inclinar para o misticismo, por causa da influência da doutrina quietista de Molinos. É pedagogo ao serviço da aristocracia, moralista e tratadista político. Na sua época tem grande reputação como pregador, mas conservam-se apenas amostras da sua eloquência. Passa à posteridade graças a As Aventuras de Telémaco, que sob a aparência de uma novela passada na antiga Grécia propõe com verbo fácil e brilhante uma série de ideias políticas e morais para a educação dos príncipes. O seu estilo, que seduz os seus contemporâneos pela suavidade, a elegância e a pureza do idioma, está carregado por um excesso de reminiscências clássicas.

Fénelon envolveu-se com certa mulher mística chamada Madame Guyon com quem partilhava de certa doutrina que na teologia se conhece por "doutrina do amor puro". Com essa doutrina Fénelon se alinhava nas filas do "quietismo", por isso foi perseguido e condenado por outro grande bispo, Bossuet. Ficaram famosas na história da Igreja as contendas e controvérsias entre Fénelon e Bossuet, sem dúvida dois grandes homens e dois grandes bispos. O bispo Fénelon foi um dos grandes mestres da língua francesa; e um dos maiores diretores de consciência de que se tem notícia. Figura importante na corte de Luís XIV (até cair em desgraça e retirar-se para a sua diocese de Cambrai), ele exercia essa direção espiritual sobretudo através da sua correspondência; e assim é que temos, até hoje, perfeita noção do “estilo” de Fénelon — tanto o literário como o espiritual. Há que citar, entre as suas obras, o Tratado da Educação das Moças, Diálogos sobre a Eloquência, Carta sobre as Ocupações da Academia Francesa, Máximas dos Santos e Diálogos dos Mortos.
Fénelon faleceu em 1715, em Cambrai, na sua diocese.

PENSAMENTOS DE FÉNELON

O trecho seguinte foi dirigido a uma dama da corte que se queixava de estar sempre triste:

"Muitas vezes a tristeza vem de que, procurando a Deus, nós não temos o sentimento da sua presença. Querer sentir não é querer possuir: é uma espécie de amor próprio; queremos ter certeza de possuir, para só então sentir a consolação. A nossa natureza comum se impacienta de viver apenas da fé. Ela quer sair dessa situação, porque na verdadeira fé, parecem faltar os apoios; a alma fica como que no ar; ela gostaria de “sentir” que está progredindo. Gostaríamos, por amor próprio, de ter o prazer de nos vermos perfeitos; resmungamos porque isso ainda não é visível; ficamos impacientes, altivos, de mau humor contra os outros e contra nós mesmos. É um erro. Como se a obra de Deus pudesse concretizar-se pela nossa tristeza! Como se pudéssemos nos unir ao Deus da paz perdendo a paz interior... “Marta, Marta, você se preocupa com muitas coisas”, diz o Cristo, que acrescenta: “Só uma coisa é necessária”; e essa coisa é amá-lo e saber viver tranqüilamente a seus pés."

As cartas de direção espiritual que Fénelon escreveu são famosas; de uma delas extraiu-se o trecho seguinte:

"É certo, segundo a Escritura, que o espírito de Deus habita dentro de nós, que ali ele age, reza sem cessar, geme, deseja, pede o que nós mesmos não sabemos pedir, nos anima, nos impele, nos fala em silêncio, nos sugere toda a verdade, e nos une de tal modo a ele que nós nos tornamos um mesmo espírito com Deus. Eis o que a fé nos ensina; eis o que os doutores mais afastados da vida interior não podem deixar de reconhecer. Entretanto, apesar desses princípios, eles tendem sempre a supor, na prática, que a leiexterior, ou uma certa luz de doutrina e de raciocínio, nos ilumina interiormente, e que em seguida é a nossa razão que age por ela mesma a partir dessa instrução. Não contamos suficientemente com o mestre interior que é o Espírito Santo, e que faz tudo em nós. Ele é a alma da nossa alma: não poderíamos formar nem pensamento nem desejo a não ser por ele. Infelizmente, assim é a nossa cegueira: agimos como se estivéssemos sós nesse santuário interior; quando, bem ao contrário, Deus está ali mais intimamente do que nós mesmos".

O trecho seguinte chama-se “Fidelidade nas pequenas coisas”:

"Gostaríamos cem vezes mais de fazer a Deus alguns grandes sacrifícios, por dolorosos que fossem, com a condição de ganhar em seguida a liberdade de seguir nossos gostos e hábitos em todos os pequenos detalhes. E, no entanto, é pela fidelidade nas pequenas coisas que a graça do verdadeiro amor se apóia, e se distingue dos fervores passageiros".

"Deveríamos saber que Deus não considera tanto as nossas ações quanto o espírito de amor com que as praticamos. As pessoas julgam as nossas ações pelo exterior; mas para Deus, pouco importa o que brilha aos olhos dos homens. O que Ele quer é uma intenção pura, é uma vontade dócil em Suas mãos, é um sincero desprendimento de nós mesmos. Esse exercício pode ser praticado muito melhor nas coisas comuns do que nas extraordinárias — onde a tentação do orgulho é sempre muito grande".

"Tudo o que pedimos é morrer antes de sermos infiéis ao Senhor. Não nos dê a vida se formos amá-la demais".

"Muitas vezes nossos erros nos beneficiam mais do que nossos acertos. As façanhas enchem o coração de presunção perigosa; os erros obrigam o homem a recolher-se em si mesmo e devolvem-lhe aquela prudência de que os sucessos o privaram".

"Senhor, dê a nós, seus filhos, aquilo que não sabemos pedir. Não teríamos outro desejo a não ser cumprir Sua vontade. Ensina-nos a rezar, ora em nós".

"Meu Deus, resquarde-me da escravidão fatal que os homens insanamente chamam de liberdade. Apenas no Senhor está a liberdade. É a Sua verdade que nos liberta. Servir ao Senhor é a verdadeira conquista".

"Não basta mostrar a verdade, é preciso apresentá-la amavelmente".

"Já é saber muito quando se sabe que não se sabe nada".

"O mais livre de todos os homens é aquele que consegue ser livre na própria escravidão".

"Nenhum poder humano consegue forçar o impenetrável reduto da liberdade de um coração".

"Desconfiem dos sábios e dos grandes argumentadores. Eles esmorecem à volta dos problemas [...], a sua curiosidade é uma avareza espiritual que é insaciável. São como os conquistadores que destroem o mundo sem o possuir".

"Antes de buscarmos o perigo, torna-se indispensável prevê-lo e temê-lo; mas, quando estamos metidos nele, só nos resta desprezá-lo".

"Aquele pensa que sabe muito, mas não sabe de nada, e a sua ignorância é tanta que nem sequer está em condições de saber aquilo que lhe falta".

"Aqueles que nunca sofreram não sabem nada; não conhecem nem os bens nem os males; ignoram os homens; ignoram-se a si próprios".

"Desejar o impossível é doença da alma".

"Se quereis formar juízo acerca de um homem, observai quem são os seus amigos".

"Reservando ao pintor a tarefa severa e controlável de começar os quadros, atribuímos ao espectador o papel vantajoso, cómodo e cómico de os acabar pela sua meditação ou pelo seu sonho".

"Só é digno de glória o coração capaz de suportar o desgosto e de desprezar os prazeres".

"A pátria de um porco encontra-se por toda a parte onde há bolotas".

"As injúrias são os argumentos daqueles que não têm razão".

"As almas belas são as únicas que sabem o que há de grande na bondade".

"Todos os homens procuram a paz da alma, mas não a procuram onde ela existe".

"Tão-somente o infortúnio pode converter um coração de pedra num coração humano".

"A avareza e a ambição mostram-se mais descontentes do que não têm, do que satisfeitas com o que possuem"

"Para que uma obra de arte seja realmente bela, é preciso que nela o autor se esqueça de si mesmo e me permita esquecê-lo".

"É indigno de um homem honesto servir-se dos restos de uma amizade que termina, para satisfazer um ódio que começa".

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

ANGELUS SILESIUS (1624-1676)

Angelus Silesius, era o pseudônimo de Johannes Scheffer, que nasceu em 1624, em em Breslau, na Polônia. Nascido em uma família luterana de posses recebeu uma fomação clássica, partiu em 1643 para estudar medicina em Strasbourg, Leyde e Pádua. Doutor em filosofia e medicina, tornou-se médico do príncipe de Öls, frequentando círculos místicos e ligando-se a Abraham von Franckenberg, díscipulo de Jacob Boehme. Foi luterano fervoroso até os 29 anos. Um ano após a morte de seu mestre, Scheffler converteu-se ao catolicismo em 1653, tomando o nome de Angelus Silesius. Passou a viver em retiro e silêncio durante três anos, e publicando vários poemas. Ordenou-se padre em 1661, com 37 anos, e escreveu panfletos contra os protestantes, continuando com sua obra poética.

Silesius foi um grande místico; procurou continuamente Deus dentro de si mesmo. Silesius foi um apaixonado por Cristo.

Foi místico cristão, filósofo, médico, poeta, jurista. Escreveu o livro "O Peregrino Querubínico", livro que reúne dísticos alexandrinos rimados. Silesius foi também um grande expoente da poesia barroca alemã.

Herdeiro da grande tradição de Eckhart e Tauler, mas também de Boehme, Angelus Silesius lhes deu uma expressão poética ímpar, além de qualquer formulação cofessional. Deus é indefinível, ao mesmo tempo Tudo e Nada, Ser e Nada. Diante de seu Criador, o homem não é nada e no entanto nele somente, que é "à imagem de Deus", este pode se contemplar. O homem deve assim abandonar-se totalmente, esvaziar-se de si-mesmo, para tornar-se aquilo que verdadeiramente é, um reflexo divino e deste modo eterno. O Peregrino Querubínico influenciou muitos filósofos alemães, sendo reconhecido como uma das formulações mais notáveis de um misticismo que supera toda e qualquer convenção.

Angelus Silesius faleceu em 1676, na cidade de Breslau, 52 anos.

PENSAMENTOS DE ANGELUS SILESIUS

"De tal modo Deus tudo ultrapassa, que nada se pode dizer: por isso melhor rezas a ele quando ficas em silêncio"

"Pára, aonde corres? O céu está em ti! Se procuras Deus noutro lugar, sempre mais o perdes"

"A mais nobre oração é quando o orante se transforma no íntimo naquele ao qual se ajoelha"

"Homem, se não sabes pedir graça a Deus com palavras, fica mudo diante dele: serás ouvido da mesma forma"

"Sem íntima comunhão com a divindade de Deus, como posso ser seu filho e ele meu pai?"

"Meu amor e meu tudo! - é o eco de Deus quando me ouve invocar: meu Deus e meu tudo!"

"O pássaro vive no ar, a pedra no chão, na água o peixe, e meu espírito na mão de Deus"

"Se de Deus nasceste, Deus floresce em ti, e sua divindade é tua seiva e ornamento"

"Sou vasto como Deus: não há no mundo inteiro quem me mantenha (oh, maravilha!) fechado em mim"

"Quando me perco em Deus chego de novo lá onde antes de mim eu era desde a eternidade"

"Quando pensas em Deus, em ti o ouvirás: se te calas e aquietas, ele sempre te falará"

"Deus me ama tanto quanto tudo sobre a terra: se não se tivesse encarnado, o faria agora por mim"

"Pode-se chamar o Altíssimo com todos os nomes; mas também, ao contrário, não lhe dar nome nenhum"

"Quem diz que algo no mundo é doce e amável ainda não conhece a beleza de Deus"

"Esvazia para Deus teu coração: ele não entra em ti se não vê o teu coração saído do teu coração"

"Tenho em mim a imagem de Deus: se ele quer ver-se, pode fazê-lo apenas em mim e em quem é como eu"

"O sábio jamais perdeu sequer um centavo: nunca teve nada, e nada lhe foi tirado"

"Eu próprio sou eternidade, quando abandono o tempo e me recolho em Deus e Deus em mim"

"Quanto mais te abandonas em Deus, mais ele nasce em ti; nem menos nem mais ele te ajuda em tuas fadigas"

"Sei que sem mim Deus não pode um momento viver: se eu nada me tornar, ele deve por certo morrer"

"Deus é fogo em mim e eu nele sou a luz: não estamos, juntos, profundamente unidos?"

"Nunca o homem bendisse mais altamente a Deus do que quando lhe concedeu gerá-lo como Filho"

"Se minha lâmpada deve espalhar luz e raios, o óleo, meu amado Jesus, deve jorrar de ti"

"Apenas Deus me ama: tanto se inquieta por mim que morre de temor que eu não o siga"

"Meu coração é um altar e minha vontade a vítima, minha alma é o sacerdote e o amor chama e brasa"

"Sou grande como Deus, e ele pequeno como eu; ele não pode estar acima de mim, nem eu abaixo dele".

"Puro como o mais fino ouro, firme como uma rocha, completamente límpido como o cristal: assim deve ser teu coração"

"Eu não sei o que eu sou, eu não sou o que eu sei:Uma coisa, e por tanto coisa nenhuma, um pequeno ponto e um círculo"

"Também sou filho de Deus, estou sentado a Sua direita: Seu Espírito, Sua carne e Seu sangue são em mim conhecidos"

"Deus não se dá a ninguém; se oferece a todos, para ser todo teu se tu O queres"

RELATOS DE UM PEREGRINO RUSSO

O livro RELATOS DE UM PEREGRINO RUSSO é um clássico da espiritualidade cristã oriental. Foi escrito por um monge russo anônimo, no século XIX. O PEREGRINO RUSSO conta a história de um homem que queria aprender a rezar. Ele ouviu certa vez na Bíblia que deveríamos "orar sem cessar". Ele procurou muitos mestres, e nenhum o satisfez, até que encontrou um monge (um starets) que lhe ensinou a ORAÇÃO DE JESUS, a repetição do nome de JESUS... O homem então começou a repetir o nome de JESUS até que a oração tomou conta de sua mente e de seu coração.

A ORAÇÃO DE JESUS consiste em sentar-se em silêncio, aquietar a mente e dirigir a atenção ao coração, procurando trazer a respiração ali, sentindo seu efeito. E, ao fazer isso, murmurar ou pensar nas palavras: "Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim”. Como água em pedra dura, a repetição vai amolecendo o coração do peregrino, “aprofundando- se em sua carne”. Ele repete as palavras 3 mil, 6 mil,12 mil vezes ao dia. E passa por vários estados, do desconforto e preguiça iniciais às primeiras sensações de calor no peito, a purificação vinda pelas lágrimas, o sentimento de união com o mundo, a abertura para a paz, até atingir a experiência do amor divino. Esse homem alcançou a oração contínua, aprendeu a "orar sem cessar". . Ele repetia o nome de JESUS o dia inteiro, e até durante o sono o nome de JESUS estava em seu coração.

O PEREGRINO RUSSO conta a história de como esse homem aprendeu a "orar sem cessar", por meio da ORAÇÃO DE JESUS, que consiste na repetição do nome de JESUS.

TRECHOS DO LIVRO RELATOS DE UM PEREGRINO RUSSO

"Por graça de Deus sou homem e sou cristão; pelas minhas ações sou um grande pecador. Meus bens são: as costas, uma sacola com pão duro, a santa Bíblia no bolso e só... Por estado, sou peregrino da mais baixa condição, andando sempre errante de um lugar a outro. No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer minhas orações durante a liturgia. Estava sendo lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: 'Orai incessantemente' (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida".

"É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas. Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe; se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica Aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece, a Ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre".

"A oração interior incessante é um anseio contínuo do espírito humano por Deus. Para sermos bem-sucedidos nesse exercício consolador, precisamos suplicar com mais freqüência a Deus que nos ensine a rezar sem cessar. Rezar mais e rezar com mais fervor. É a própria oração que lhe revela como rezá-la sem cessar; mas leva algum tempo".

"Dá graças a Deus, irmão muito amado, por haver-te Ele revelado essa invencível atração que existe em ti até a oração interior contínua. Reconhece nisso o chamamento de Deus e tranquilíza-te pensando que assim ha sido devidamente provado o acordo de tua vontade com a palavra divina; te ha sido dado comprender que não é nem a sabedoria deste mundo nem um vão desejo de conhecimento o que conduz à luz celestial —a contínua oração interior—, senão ao contrario, a pobreza de espírito e a experiencia ativa na simplicidade do coração".

"Como se aprende a oração, veremos neste livro que se chama Filocalia. Nele está contida a ciencia completa e detalhada da oração interior contínua, exposta por vinte cinco Padres. É tão útil e perfeito, que se lhe considera como o guia essencial da vida contemplativa, e, como disse o bem-aventurado Nicéforo, 'conduz a salvação sem trabalho nem dor'".

"Abriu o starets a Filocalia, escolheu uma passagem de São Simeão o Novo Teólogo e começou: 'Permanece sentado no silencio e na solidão, inclina a cabeça e fecha os olhos; respira suavemente, mira pela imaginação o interior de teu coração, recolhe tua inteligencia, quer dizer teu pensamento, de tua cabeça ao teu coração. Diz, ao ritmo da respiração: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”, em voz baixa, ou simplesmente em espírito. Esforça-te em lançar fora todos os demais pensamentos, sê paciente e repete com frequência este exercicio'".

"A oração de Jesus, interior e constante, é a invocação contínua e ininterrupta do nome de Jesus com os lábios, o coração, a inteligência, no sentimento da sua presença, em todo lugar, em todo tempo, até durante o sono. Ela é expressa por estas palavras: 'Senhor, Jesus Cristo, tende piedade de mim'".

"Ao cabo de certo tempo notei que a oração se originava sozinha dentro de meu coração, quer dizer que meu coração, batendo com toda regularidade, se punha em certo modo a recitar as palavras santas a cada batida; por exemplo: 1-Senhor, 2-Jesus, 3-Cristo, e assim com o demais. Deixava de mover os labios e escutava com atenção o que dizia meu coração, lembrando-me de quão agradavel é isto segundo me dizia meu falecido starets".

"Todo meu desejo estava fixo sobre uma só coisa: dizer a oração de Jesus e, desde que me consagrei a isto, estive tomado de alegria e de consolo. Era como se meus lábios e minha língua pronunciassem por si mesmas as palavras, sem esforço de minha parte".

"Então senti como um rápido calor em meu coração, e tal amor por Jesus Cristo em meu pensamento, que me imaginei, a mim mesmo, ajoelhando-me a seus pés – Ah se pudesse vê-lo! – abraçando-o, beijando com ternura seus pés e agradecendo-lhe com lagrimas haver me permitido, em sua graça e seu amor, encontrar em seu nome tão grande consolo – a mim sua criatura indigna e pecadora. Em seguida sobreveio em meu coração um calor agradável que se expandiu para todo meu peito".

“Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus”

"Algumas vezes meu coração resplandecia de alegria, parecia leve, pleno de liberdade e de consolo. As vezes eu sentia um amor ardente por Jesus Cristo e por todas as criaturas de Deus... As vezes, invocando o nome de Jesus, estava repleto de felicidade e, depois disto, conhecia o sentido destas palavras: 'O reino de Deus está dentro de vós'"

A NUVEM DO NÃO-SABER

A NUVEM DO NÃO-SABER é um livro clássico da espiritualidade monástica. Foi escrito por um monge inglês no século XIV. Ele ensina uma oração/meditação não discursiva, em que entra-se em si mesmo e dirige-se a Deus ou o olhar interior ou uma palavrinha curta. Segundo o autor o acesso a Deus não se faz pelo pensamento ou pela razão, mas pelo silêncio.
O nosso amor nu — nu por estar despojado de pensamento — deve elevar-se até Deus, oculto por trás da nuvem do não-saber. Com a nuvem do não-saber por cima de mim — entre meu Deus e eu, e a nuvem do esquecimento debaixo —, entre todas as criaturas e mim, encontro nele o "silêncio místico", que o autor inglês conhece pela obra do Pseudo-Dionísio.
Além da influência exercida por esse livro na espiritualidade de sua época, cabe a nosso tempo ter redescoberto — depois de cinco séculos de esquecimento quase total — um autor que parece estar em moda nos movimentos de oração e meditação cristã e não cristã no Ocidente. "Neste clima, os que procuram um guia místico não podem fazer nada melhor do que se dirigir ao autor anônimo do século XIV de A Nuvem do não-saber." "Trata-se de um inglês místico, teólogo e diretor de almas, que se situa em plena corrente da tradição espiritual do Ocidente. Um escritor de grande força e de notável talento literário, que compôs quatro tratados originais e três traduções".
Abaixo alguns trechos de A Nuvem do Não-Saber...

PENSAMENTOS DE A NUVEM DO NÃO-SABER

"Ó Deus, a quem todos os corações estão abertos, para quem o desejo é eloquente e de quem nenhuma coisa secreta é escondida, purificai os pensamentos de meu coração pelo transbordar de vosso Espírito em mim, que eu possa amar-vos com um amor perfeito e louvar-vos como vós mereceis. Amém!"

"Pois quando você começa a executá-lo pela primeira vez, tudo quanto você encontra é escuridão, uma espécie de nuvem do "não-saber"; você não pode dizer o que é, exceto que você sente, através de sua vontade, um simples desejo de alcançar Deus. Esta escuridão com a nuvem está sempre entre você e o seu Deus, não importa o que você faça, e é esta que o impede de ver Deus claramente através da luz do entendimento de sua razão, ou ainda que o impede de conhecer Deus na doçura do amor em sua própria afeição. Portanto, comece a descansar nesta escuridão enquanto você puder, gritando sempre por Ele, a quem você ama".

"Aquele a quem nossa mente não pode compreender, o nosso coração pode abraçar."

"Portanto, organize bem o seu tempo e a forma como o utiliza. Nada é mais precioso que o tempo. Uma pequena partícula de tempo, por menor que seja, é preciosa, pois devido a ela o céu pode ser ganho ou perdido."

"Portanto, preste cuidadosa atenção a este exercíco e ao modo maravilhoso como ele age dentro de sua alma. Pois quando é bem compreendido, ele nada mais é do que um súbito impulso, algo que chega sem avisar, elevando-se, voando rapidamente até chegar a Deus, como a faísca voa para cima partindo do carvão ardente".

"Eleve seu coração para Deus com um humilde impulso de amor; e tome Ele mesmo como seu objetivo e não como qualquer um de seus bens. Tenha cuidado: evite pensar em outra coisa que não seja nele mesmo, de maneira que não haja coisa alguma em que a sua razão ou a sua vontade trabalhe, exceto Ele mesmo. Faça tudo o que estiver ao seu alcance para esquecer todas as criaturas que Deus já criou, para que, nem o seu pensamento, nem o seu desejo, em geral ou em particular, sejam dirigidos ou estendidos a qualquer uma delas. Deixe-as em paz e não preste atenção nelas. Esta é a obra que mais agrada a Deus".

"Assim, portanto, pode-se entender logo o método deste trabalho e perceber claramente que ele se encontra muito afastado de qualquer fantasia ou falsa imaginação ou opinião sutil: uma vez que todas estas não são ocasionadas por aquele simples, devoto e humilde impulso do amor, mas por um raciocínio orgulhoso, especulativo e excessivamente imaginativo...."

"Portanto, pelo amor de Deus, tome cuidado neste exercício e de nenhum modo trabalhe com seus sentidos ou com a sua imaginação. Pois, eu lhe digo sinceramente, este exercício não pode ser alcançado através do trabalho deles; assim, pois, deixe-os e não trabalhe com eles."

"Tenho algo a lhe dizer: tudo quanto você pensar está acima de você durante este espaço de tempo, e está entre você e o seu Deus. Na medida em que houver alguma coisa em sua mente exceto Deus só, nesse mesmo instante você estará longe de Deus."

"Agora, porém, você me faz uma pergunta dizendo: "Como eu poderia pensar nele mesmo e o que Ele é?" A isto eu só posso responder nestes termos: "Não tenho a menor idéia". Pois, com esta pergunta, você me introduziu nessa mesma escuridão, nessa mesma nuvem do não-saber onde eu gostaria que você mesmo estivesse. Porque um homem pode, pela graça, possuir a plenitude do conhecimento de todas as criaturas e das suas obras como também das obras do próprio Deus, e ele é bem capaz de refletir sobre elas. Mas homem nenhum pode pensar em Deus como Ele mesmo".

"Portanto, embora o pensamento seja uma luz e uma parte da contemplação, mesmo assim neste exercício, ele deve ser rejeitado e coberto com uma nuvem do esquecimento. Você deve pisar por cima dela corajosamente mas com amor, e munido de um amor devoto, agradável e impulsivo esforçar-se para atravessar essa escuridão acima de você. Você tem que bater nessa nuvem do não-saber com um dardo afiado de amor ardente".

"Se surgir algum pensamento que continue a pressionar, acima de você e entre você e essa escuridão, e lhe perguntar: "O que você procura e o que gostaria de ter?", você deve dizer que é a Deus que gostaria de ter: "É Ele que eu almejo, Ele a quem eu procuro, e nada além dele". E caso o seu pensamento indagar quem é esse Deus, você deve responder que é o Deus que criou você e o resgatou, e que, com a sua graça o chamou para seu amor. E diga: "Você não tem nenhum papel para representar". Portanto, diga ao pensamento: "Vá para baixo novamente". Esmague-o rapidamente com um impulso de amor, mesmo que este pareça ser muito santo..."

"Portanto, quando você iniciar este exercício, e souber por experiência, através da graça, que você está sendo chamado por Deus para isso, levante então seu coração para Deus com um humilde impulso de amor e destine-o ao Deus que criou você e o resgatou, e que na sua graça chamou você para este exercício. Não tenha outro pensamento sobre Deus; nem mesmo qualquer um destes pensamentos, a menos que seja de seu agrado. Pois uma simples aproximação em linha reta a Deus é suficiente, sem nenhuma outra causa exceto Ele próprio. Se você quiser, pode ter esta extensão envolvida e cingida em uma só palavra. Por isso, a fim de obter melhor compreensão disto, tome só uma palavrinha, de uma sílaba, preferivelmente, ou de duas; pois quanto mais curta, melhor, de acordo com este exercício do espírito. Assim é a palavra 'DEUS' ou a palavra 'AMOR'".

"O silenciar dos nossos sentidos físicos conduz muito mais facilmente à experiência das coisas espirituais; da mesma maneira, o silenciar de nossas faculdades espirituais conduz a um conhecimento experimental de Deus, tanto quanto este seja possível, através da graça, na vida presente."

"Trabalhe com afinco neste 'nada' e neste em 'parte alguma', e abandone seus sentidos físicos externos como também os objetivos de sua atividade. Pois eu lhe digo sinceramente que este exercício não pode ser compreendido por eles".

"Pois está determinado pela natureza que através dos sentidos físicos os homens tenham conhecimento de todas as coisas físicas, e não que através destas tomem conhecimento de coisas espirituais".

"Nós fomos feitos para amar e todo o resto foi criado para tornar o amor possível"

SÃO BOAVENTURA (1218-1274)

Boaventura nasceu em 1218, no centro da Itália. Foi bispo e reconhecido doutor da Igreja de Cristo, que chamou pescadores, camponeses para segui-lo no carisma de Francisco de Assis, mas também homens cultos e de ciência. Boaventura era um destes homens de muita ciência, porém de maior humildade e conhecimento de Deus.

Certa vez Boaventura ao ficar muito doente recebeu a cura por meio de uma oração feita por São Francisco de Assis, que percebendo a graça tomou-o nos braços e disse: "Ó, boa ventura!"
Entrou na Ordem Franciscana e pelo estudo e oração exerceu sua vocação franciscana e sacerdócio na santidade, ao ponto do seu mestre qualificar-lhe assim: "Parece que o pecado original nele não achou lugar".

São Boaventura antes de se destacar como santo bispo, já chamava - sem querer - a atenção pela sua cultura e ciência Teológica, por isso ao lado de Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino caracterizaram o século XIII como o tempo de sínteses teológicas. Certa vez um frei lhe perguntou se poderia salvar-se, já que desconhecia a ciência teológica; a resposta do santo não foi outra: "Se Deus dá ao homem somente a graça de poder amá-lo isso basta... Uma simples velhinha poderá amar a Deus mais que um professor de teologia". O Doutor Seráfico, assumiu muitas responsabilidades, como ministro geral da Ordem Franciscana e como bispo.
Feito cardeal, teve então que aceitar a consagração episcopal, que antes, por humildade tinha recusado. Recebeu do papa Gregório X a missão de preparar o segundo Concílio de Lião.
Morreu no dia 15 de julho de 1274, assistido pessoalmente pelo papa. Entre os seus livros mais conhecidos está “O Itinerário da Mente para Deus”.

PENSAMENTOS DE SÃO BOAVENTURA

"Veio sobre ela (Maria) o Espírito Santo como fogo divino que inflamou sua mente e santificou sua carne, conferindo-lhe uma pureza perfeitíssima... Oh, se tu fosses capaz de sentir, de algum modo, qual e quão grande foi o incêndio que desceu do céu, que refrigério se produziu... "

"A abundância dos bens temporais é um empecilho para a alma, impedindo-a de voar para Deus".

"Mais segura e humilde está a alma no ouvido do que na língua".

"A ciência que por amor da virtude se despreza, pela virtude se adquire melhor".

"Se eu nada mais puder fazer, meu Jesus, procurarei vossas chagas e aí permanecerei".

"Se o meu Redentor, por causa de meus pecados; me atirasse longe de Si, lançar-me-ia aos pés de sua Mãe e, prostrado, não me levantaria enquanto Ela não me obtivesse o perdão. Ela não deixaria de fazer violência ao Coração de Jesus para que me perdoe".

"Se quereis progredir no amor de Deus, meditai todos os dias na paixão do Senhor".

"Interroga a graça, não a doutrina; o desejo, não o intelecto; o gemido da oração, não o estudo do que vê; o esposo, não o mestre; Deus, não o homem; a fuligem não a clareza; não a luz, mas aquele fogo que tudo penetra com sua chama e reporta a Deus com excessivas unções e com ardentíssimos afetos".

"A Missa é a obra na qual Deus coloca sob os nossos olhos todo o amor que ele nos teve: é de certo modo, a síntese de todos os benefícios que ele nos fez".

"Ó Jesus, trespassaram vosso lado para nos abrir uma porta; feriram vosso coração para nos abrir nessa sagrada vinha, um asilo seguro de toda perturbação externa".

"Não basta a leitura sem a unção, não basta a especulação sem a devoção, não basta a pesquisa sem maravilhar-se; não basta a circunspecção sem o júbilo, o trabalho sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça".

"Cada sacerdote no altar deveria ser inteiramente identificado com Nossa Senhora, porque como por meio dela é que nos foi dado este Santíssimo Corpo, assim é pelas mãos dela que Ele deve ser oferecido a nós".

"Todas as coisas criadas são sombras, ecos, imagens ou semelhanças de Deus, que é a Causa Primeira de todas as coisas"

"Já que toda a natureza divina esteve nas entranhas da Santíssima Virgem, não duvido dizer que em toda distribuição de graças tem certa jurisdição essa Virgem, de cujas entranhas como de um oceano da divindade, emanam os rios de todas as graças"

"Pela oração se obtém todos os bens e a libertação de todos os males".

"Assim como o rei julgaria traidor o capitão, que sitiado em uma praça, não lhe pedisse socorro, assim Deus considera traidor aquele que, vendo-se assaltado pelas tentações, a Ele não recorresse pedindo auxílio".

"Em um dia ganha o homem, pela oração, mais do que vale o mundo".

"Às vezes, se obtém mais depressa com uma breve oração, o que dificilmente se alcançaria com boas obras"

"Assim como nunca cessa a luta, assim também nunca devemos deixar de pedir a misericórdia divina, para não sermos vencidos".

"Quem não se ilumina com o esplendor de coisas tão grandes como o mundo e as coisas criadas, é cego. Quem com todas essas coisas não se põe a louvar a Deus, é mudo. Quem, a partir de indícios tão evidentes, não volta a mente para Deus, que é o primeiro princípio, é tolo"

"A oração é conversão da alma a Deus. Queres saber como hás de converter tua alma a Deus? Pois então ouve. Quando estás a orar deves recolher-te todo em ti mesmo e entrar com o Amado no aposento do teu coração e ali permanecer a sós com o Só, esquecido de todas as coisas exteriores e erguer-te acima de ti mesmo com todo o coração, com toda a alma, com todo afeto, com todo desejo, com toda devoção. E não hás de afrouxar o espírito de oração, mas por longo tempo hás de subir para o alto, por meio do ardor da devoção, até entrares no tabernáculo admirável, até a casa de Deus. E ali, visto de algum modo o teu Esposo com os olhos da alma e tendo saboreado de certa maneira a suavidade do Senhor e a grande afluência de sua doçura, cai nos seus braços e com os lábios fechados oscula-o com beijos de íntima devoção a fim de que, de todo alheado de ti mesmo, totalmente arrebatado ao céu, transformado todo em Cristo, não possas deter teu espírito, mas que digas, exclamando com o profeta Davi: 'Recusou a minha alma consolar-se, lembrei-me de Deus e me deleitei'".

"É pobre quando nasce, mais pobre durante a vida, pobre em extremo quando morre sobre a cruz".

"Morramos, pois, e entremos nas trevas; imponhamos silêncio às solicitudes, às concupiscências aos fantasmas; passemos com Cristo crucificado deste mundo ao Pai".

"Segundo os seis graus da ascenção a Deus, são as seis potências da alma, pelas quais ascendemos do último ao sumo, do exterior ao interior, do transitório ao eterno: os sentidos, a imaginação, a razão, o entendimento, a inteligência e o ápice da mente, ou a centelha da consciência. Esses graus, nós os temos em nós, plantados na natureza, deformados pela culpa, reformados pela graça, e devemos purificá-los com a justiça, praticá-los com a ciência, aperfeiçoá-los com a sabedoria".

"Quando uma alma olha para Deus toda a natureza lhe parece insignificante".

"O puríssimo Coração de Maria foi o Horto e Paraíso do Espírito Santo, jardim de delícias em que viceja toda a sorte de flores e se aspira toda a fragrância das virtudes... Ó Coração de amor, porque te converteste em esfera de dor? Contemplo, Senhora, o Teu Coração e nele vejo, não o coração mas a mirra, o absinto e o fel! Ó vulnerada Senhora, fere também os nossos corações! Porque não possuo ao menos o Teu Coração, para que, aonde quer que eu vá, Te veja sempre crucificada com Teu Filho!"

"A santa Missa tem tantas maravilhas quantas são as gotas de água no oceano, os grãozinhos de poeira no ar, as estrelas no firmamento, e os Anjos no céu. Nela se operam, quotidianamente, tantos mistérios que não sei se, em tempo algum, a mão onipotente de Deus fez obra melhor e mais sublime".

“Maria foi verdadeiramente forte e terna, doce e rigorosa ao mesmo tempo, rígida consigo mesma, pródiga para conosco! É, pois, a Ela que devemos amar e venerar acima de todas as coisas, em segundo lugar, após levarmos nosso amor à suprema Trindade e a seu Santíssimo Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, cujo mistério divino não pode ser expressado por língua alguma”.

“Deus não comunica vida à alma nem a ela se une (...) a não ser que ela se aqueça com o desejo da pátria celeste e do próprio Amado”.

“Não devemos duvidar do fato de que a bem-aventurada Mãe e Virgem Maria, possuidora de um coração vigoroso e determinação sempre constante, desejava dar seu Filho para a salvação do gênero humano, de tal forma que a Mãe viveu, em tudo, conforme o Pai”.

RUYSBROECK (1293-1381)

Jan van Ruysbroeck, chamado 'o Admirável', foi um místico belga, de expressão flamenga, nascido em 1293, na aldeia que lhe deu o nome, nas proximidades de Bruxelas.

Depois de estudos em Bruxelas, Jan van Ruysbroeck foi ordenado sacerdote em 1317. Ali permaneceu a serviço da catedral de Santa Gúdula. Por volta dos seus 50 anos se retirou para uma ermida numa floresta, acompanhado por seu tio e outros amigos. Ali iniciaram uma vida austera, meio eremítica e meio conventual, alternando a oração com o trabalho. Ao ser organizada a comunidade em mosteiro regular, foi eleito seu primeiro Prior, em 1350, fato que gerou ao mesmo tempo sua grande influência. Ruysbroeck era procurado por inúmeras pessoas procurando orientação espiritual e mística.

Obras (cerca de 12):

- O Adorno das Bodas Espirituais, em três livros, respectivamente sobre as formas da vida ativa, vida interior, e vida contemplativa;
- O Livro de Quatro Encantos;
- Da Fé Cristã;
- O Espelho da Salvação Eterna, em que a alma se espelha como imagem de Deus;
- Ensino da Bíblia sobre Cristo;
- O Tabernáculo, imaginando sete moradas no interior da alma;
- O Reino dos Amantes de Deus, sobre os dons do Espírito Santo;
- O Livro da Verdade Suprema, explicando os dons a que se refere o anterior;
- O Livro dos Sete Claustros, ou sete renúncias;
- As Doze Virtudes, as virtudes que servem de meios para atingir a contemplação;
- Quatro Tentações, em que, entre outros temas, é refutado o panteísmo dos "irmãos do livre espírito".

Nos seus escritos Ruysbroeck expôs uma espiritualidade que abandona o formalismo intelectualista da escolástica de até então, enveredando por um misticismo mais acentuado e por uma linguagem simbólica.

Classifica-se Ruysbroek, como Tauler e Gerson, entre os místicos ortodoxos, diferentes do modelo, por exemplo de Eckhart, mais próximo do panteísmo e da tradição neoplatônica derivada através de Pseudo Dionísio e de Escoto Erígena. Contudo se mantém próximo a estes outros.

Ruysbroeck exerceu enorme influência na teologia mística dos séculos posteriores. É um dos autores que teve a influência mais profunda e universal na teologia mística. É um dos maiores autores ascético-místicos de todos os tempos.

Os textos de Ruysbroeck, que usa o flamengo, se destinam ao leitor simples. Ele inspirou muitos outros autores, tanto do mesmo flamengo, como de outras línguas para as quais se operou tradução. Caracterizam-se pelo uso de imagens sensíveis, através das quais Ruysbroeck busca mostrar uma verdade mais ao fundo.

Ruysbroeck constitue uma ponte entre a escola alemã de Eckhart, Tauler e Henrique Suso, da qual aprendeu muito, e a "Devotio Moderna", a qual ensinou muito.

Ruysbroeck faleceu com 88 anos, em 1381, em odor de santidade e rodeado por numerosos discípulos.
Em 1908 Ruysbroeck foi beatificado pela Igreja.

PENSAMENTOS DE RUYSBROECK

"Enquanto vivemos nas sombras não podemos ver o próprio sol, pois como disse São Paulo enxergamos obscuramente através de um espelho. Mesmo assim a sombra é iluminada pelo sol de modo a percebermos as distinções entre todas as virtudes e toda a verdade que são de valor para nossa condição mortal. Mas se havemos de nos tornar unos com a luz do sol devemos seguir o amor e esquecer de nós mesmos no "Sem-Caminho", e então o sol atrairá a nós, com nossos olhos cegos, para dentro de seu fulgor, onde possuiremos a unidade com Deus... Em Sua benevolência Ele quer ser todo nosso: então Ele nos ensina a viver nas riquezas das virtudes. Em Seu toque interno todos os nossos poderes nos abandonam, e então sentamos sob Sua sombra, e Seu fruto é doce para nossos sentidos, pois o fruto de Deus é o Filho de Deus, a Quem o Pai faz nascer em nosso espírito. Este Fruto é tão infinitamente doce aos nossos sentidos que não podemos nem engolí-lo e nem assimilá-lo, mas antes é Ele quem nos absorve em Si mesmo e nos assimila em Si mesmo".

"Ó Deus, arquejo em meu desejo mas não posso comungar com o Senhor. Quanto mais eu como mais selvagem é a minha fome; quanto mais eu bebo, mais violenta é a minha sede. Persigo o que foge de mim e enquanto persigo, aumenta meu desejo".

"Quando lerdes, cantardes ou rezardes... prestai atenção ao sentido das palavras que pronunciardes e às idéias que exprimem, porque estais executando um serviço sob o olhar divino".

"Se, durante a recitação das Horas, fordes assaltados por pensamentos ou imaginações estranhas, fazei de modo a vos recolherdes novamente sem vos perturbardes, porque somos instáveis por natureza; mas apressai-vos em tornar a Deus. Com intenção e com amor".

"Ó Deus, deseje o íntimo do meu espírito para que eu possa vê-Lo como o Senhor me vê, e possa amá-Lo como o Senhor me ama".

"Ame o amor que o ama duradouramente, pois quanto mais amá-lo, mais Ele o amará. ... E quanto mais a alma rende-se à atração de Deus, mais ansiará por amá-lo".

"O homem interior entra em si de maneira simples, acima de toda a atividade e de todos os valores, a fim de aplicar-se a um simples olhar no amor de fruição e ali encontra Deus, sem intermediário".

"Não podemos contemplar Deus pelo próprio Deus, sem intermediário, se não nos perdermos na indeterminação sem caminho e numa obscuridade onde todos os contemplativos erram no prazer, sem nunca mais se voltarem a encontrar a si mesmos segundo a forma da criatura".

"Aqui, o espírito morre na beatitude da fruição, dissolve-se na nudez essencial onde todos os nomes de Deus, todas as condições e todas as imagens que se refletem no espelho da verdade divina mergulham na simplicidade sem nome da essência, no sem-caminho onde nenhum raciocínio tem poder".

"Nós contemplamos intensamente aquilo que somos; e aquilo que contemplamos, isso mesmo somos: assim a nossa mente, vida e essência é elevada e unida à própria verdade, que é Deus. Nesta simples e intensa contemplação somos uma única vida e um único espírito com Deus. Esta chamo eu vida contemplativa".

"As ordens mais altas (Querubins, Serafins, Tronos) não se unem em nossa luta contra nossos vícios, mas moram conosco apenas quando, acima de todo conflito, estamos em paz com Deus, em contemplação e em perene amor".

"Aquele que é dotado de boa vontade, promete-se a ele próprio, e deseja ardentemente amar a Deus e servi-lo, não somente nesta vida, mas durante a eternidade".

"O espírito possui Deus essencialmente na sua nua natureza e Deus possui o espírito. O espírito vive em Deus e Deus vive nele. Esta unidade essencial reside em Deus; se ela faltasse, todas as criaturas seriam reduzidas ao nada".

"Este brilho é tão grande que o amante contemplativo, sobre o chão em que repousa, não vê nem sente nada exceto uma Luz incompreensível; e apesar desta Nudez Simples que engloba todas as coisas, ele se descobre e sente a si mesmo como sendo esta mesma Luz através da qual ele vê e nada mais... Benditos os olhos que vêem assim, pois eles possuem a vida eterna".

"Se pudéssemos renunciar a nós mesmos e a todo o egoísmo em nosso trabalho, deveríamos, com nosso espírito nu de imagens, transcender todas as coisas, e sem intermediários ser conduzidos pelo Espírito de Deus até a Nudez... Quando transcendermos a nós mesmos, e nos tornarmos, em nossa ascensão para Deus, tão simples que o amor nu das alturas possa nos tomar, onde o amor abraça o amor, acima do exercício de qualquer virtude - isto é, em nossa Origem, de Onde nascemos espiritualmente - então cessamos, e nós e toda nossa individualidade morre em Deus".

"Lá ele encontra revelada uma Luz Eterna, e nesta Luz ele sente a eterna demanda pela Divina Unidade, e ele sente ser ele mesmo um eterno fogo de amor, que deseja acima de tudo ser uno com Deus. Quanto mais atende a esta demanda, mais a sente... e assim pode-se ver que a Unidade interior de Deus não é nada mais do que o Amor insondável... e portanto devemos todos alicerçar nossas vidas sobre um abismo insondável, para que possamos mergulhar eternamente no Amor e nos precipitarmos na Profundeza insondável".

"O homem deve mergulhar naquela Nudez sem imagens que é Deus; esta é a primeira condição, e o fundamento, de uma vida espiritual".

"Aqueles que seguem o caminho do amor, são os mais ricos dos viventes: São ousados, francos e destemidos, não têm aflições nem preocupações, pois o Espírito Santo carrega todos os seus fardos. Eles não procuram aparências exteriores, nem desejam nada que o homem estima, não ostentam uma conduta especial, e passariam por homens bons como quaisquer outros".

"A segunda vinda de Cristo, nosso Esposo, tem lugar cada día dentro dos homens de bem; geralmente e muitas vezes, com graças e dons novos, em todos aqueles que se aprestam a si mesmos por ela, cada um segundo seu poder"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

MIGUEL DE MOLINOS (1628-1697)

O sacerdote católico espanhol, Miguel de Molinos aparece como sendo um dos mais controvertidos personagens da história da Igreja Católica. Miguel de Molinos nasceu em 1628, em Saragoça, Espanha, em berço abastado. Embora o material de pesquisa sobre sua família seja escasso, supõe-se que Molinos tenha sido um dos últimos filhos, senão o mais novo, de uma nobre família dessa região, pois era costume da época que os filhos mais jovens da nobreza fossem confiados à Igreja para serem preparados à vida religiosa. Em Valência, Molinos foi educado no Colégio Jesuíta de São Paulo.

Possuidor de grandes habilidades naturais à religiosidade, Molinos se dedicou ao serviço de seus companheiros sem qualquer tipo de ganho para si próprio. Sua vida foi inteiramente consagrada a seus semelhantes e marcada por grande piedade e generosidade. Com o aumento de sua popularidade, a procura pelos conselhos do Padre Molinos se tornou tão grande que ele começou a receber uma certa pressão no sentido de registrar seu pensamento e seus ensinamentos. Deste modo, muitos outros teriam acesso a sua doutrina. Assim, Molinos, por volta de 1673,começou a escrever seu método de consecução espiritual. Em 1675, Molinos publicou seu "O Guia Espiritual", no qual ele expunha, demodo claro e direto, a sua doutrina mística para aquele buscador que desejava enxergar.

O Guia Espiritual de Miguel de Molinos, escrito sem a pompa e a especulativa erudição dos teólogos e autores da época, rapidamente ganhou ocoração dos seus leitores, atingindo, com igual força, tanto o profanoquanto o doutor, alcançando fama na Itália e na Espanha. Em seguida, esselivro ganharia novas traduções, aumentando ainda mais a fama de seu autorpor toda a Europa. Molinos adquiriu tal reputação, que seu nome e suas idéias começaram achamar a atenção de certos segmentos do clero, principalmente de alguns Jesuítas e Dominicanos que, temendo um crescimento ainda maior de sua popularidade, resolveram pôr um fim em sua crescente fama, evitando assim apossibilidade de um novo cisma dentro da Igreja. A morte de Miguel de Molinos na prisão, em dezembro de 1697, e a constante perseguição imposta àqueles que ainda seguiam os seus ensinamentos acabariam por decretar o fim da curta história dos Quietistas.

A filosofia de Molinos, conforme seu Guia Espiritual, diz que, no sublime propósito de se realizar a perfeição cristã, bem como a suprema comunhão com Deus, o homem deverá se submeter inteiramente aos Seus desígnios, com humildade, anulando por completo a sua vontade individual. A vida em si deveria ser um contínuo ato de amor e fé. A via espiritual, portanto, era resumida por uma perfeita quietude de desejos, passividade total da alma suplicante diante de Deus e, de tal modo deveria ser ocomportamento do buscador, que mesmo o desejo de sucesso nessa demanda teriaque ser excluído. Da mesma forma, o desejo de felicidades mundanas, virtudes e qualquer outro tipo de atividade humana, tudo era tido como obstáculo entre a alma e Deus, devendo ser, igualmente, excluídos de seu ser. Conforme Molinos, aquela alma, que porventura galgasse tal estado de aniquilação, se encontraria em uma condição na qual lhe seria impossível cometer erros ou pecados. E mesmo se por acaso essa abençoada alma parecesse pecadora ante os olhos mundanos, ou até se ela parecesse, de modo exterior, violar qualquer um dos mandamentos de Deus ou algum dos preceitos da Igreja, interiormente, ela estaria em perfeita quietude, onde a verdade de sua santidade apenas revelaria em seus atos a própria vontade de Deus. Nesse estado de plena iluminação, as orações, penitências e qualquer luta contra as tentações já não mais seriam os instrumentos utilizados por ela,pois ela estava unida ao Criador.

QUIETISMO

O quietismo é uma concepção místico-religiosa que busca a união do homem com Deus por meio de um estado de passividade ("quiete") e de total abandono davontade que atenua ou suprime toda responsabilidade moral. No âmbito do cristianismo oriental, elementos quietistas podem ser encontrados entre os messalianos ou êuquitas, condenados pelo Concílio de Éfeso (431), e entre os monges hesicastas do monte Atos.

No Ocidente, o quietismo está expresso emalgumas tendências dos cátaros, dos Irmãos do Livre Espírito, dos beguinos ou begardos e dos alumbrados espanhóis. A doutrina do quietismo, porém, só se explicitou no século XVII no âmbito de algumas correntes no seio da Igreja católica, influenciadas pelo protestantismo. Seu principal expoente foi o espanhol Miguel de Molinos, confessor e diretor espiritual muito apreciado em Roma desde 1663, que, em seu "Guia espiritual", sustentava aperfeita quietude e passividade da alma diante de Deus, de forma a excluir toda atividade e aspiração própria do homem. Em 1675, publicou o "Breve tratado sobre a comunhão cotidiana" e o "Guia espiritual que liberta a alma e a conduz pelo caminho interior para alcançar a perfeita contemplação e o rico tesouro da paz interior", em que estão contidos os princípios fundamentais do quietismo, encabeçados pelo princípio da superioridade da contemplação sobre a meditação. Dez anos mais tarde, ao que parece atendendo a solicitação explícita dos jesuítas, Molinos foi preso sob a acusação de heresia (1685). Obrigado a abjurar, por fim foi condenado à prisão perpétua, com a bula "Caelestis Pastor" do papa Inocêncio XI (1687).

Na França, Madame Guyon e seu confessor, F. Lacombe, promoveram o desenvolvimento de tendências quietistas, cujos vestígios também estão presentes na polêmica sobre o "amor puro" entre J. B. Bossuet e F. Fénelon, que terminou com a condenação das teses de Fénelon por Inocêncio XII (1699).

PENSAMENTOS DE MIGUEL DE MOLINOS

"A oração (...) é uma elevação da mente a Deus. E para colocar a mente emDeus, que é a contemplação, é necessário deixar as considerações ediscursos, mesmo elevados, que constituem a meditação. Esta, dizem ossantos, busca, expõe, rumina ou mastiga o alimento divino. E, se estamossempre mastigando ou ruminando a comida na boca e nunca engolimos parasossegá-la e dirigi-la com quietude no estômago, não poderemos viver, nemsustentar-nos, ou tirar proveito algum. A meditação também é um meio parachegar ao término e ao fim, que é a contemplação. A contemplação é encontrara coisa, é saborear e sossegar o alimento divino no estômago, é o fim e aconclusão do caminho, e é chegar a entender e conhecer Deus."

“Veste-te desse nada, dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada seja teu contínuo sustento e morada, até aprofundar-te nela; eu te aseguro que, sendo tu desta maneira o nada, seja o Senhor o todo em tua alma”.

“Ultimamente não mires nada, não desejes nada, não queiras nada, não solicites saber nada, e em tudo viverá tua alma em quietude e gozo descansada. (…) Caminha, caminha por esta segura senda e procura nesse nada submergir-te, perder-te, abismar-te, se queres aniquilar-te, unir-te e transformar-te”.

"O que tu hás de fazer será não fazer nada, procura nesse nada submergir-te... O que importa é preparar teu coração a maneira de um papel em branco, aonde a divina sabedoria possa formar os caracteres a seu gosto".