domingo, 4 de janeiro de 2009

MARGARIDA PORETE (1250-1310)

Margarida de Hainault, conhecida como "Porete", nascida em 1250, em Valenciennes e queimada viva, numa segunda-feira, 1º de Junho de 1310, no lugar de Grève, em Paris.

Margarida foi uma Beguina. Ela foi influenciada pelos escritos do Pseudo-Dionísio. Ela escreveu sua grande obra O Espelho das Almas Simples, apresentando a teologia negativa do Peudo-Dionisio, como um diálogo em que apresentava o Amor da Alma tocada por Deus, e fazia falar o Amor e a Razão em diálogos alegóricos. Margarida orientou toda a pulsão do fino amor cortês para o Nada, de Deus, de si e do mundo, numa transmutação da lírica erótica no erotismo místico. Para Porete, não há imagem divina estereotipada, pois qualquer tentativa de definir Deus utiliza de uma forma de linguagem para traduzir o intraduzível. Distinguindo três níveis ou graus na via e na vida espiritual, os dos “ativos”, “contemplativos” e “aniquilados”, Margarida concebe todo o processo de realização de si como um processo de “aniquilamento”. A alma deve passar por três mortes: primeiro a do “pecado”, da qual nasce a “vida da graça”; depois a da “natureza”, da qual nasce a “vida do espírito”; finalmente a do próprio “espírito”, pela qual passa a viver "da vida divina". O aniquilamento faculta a plenitude de uma Vida divina. Como diz Margarida, indicando as fases do processo, a alma passa das “Virtudes” ao “Amor”, do Amor” ao “Nada” e do “Nada” à “Omniclaridade de Deus”. Aí, está a tal ponto “reposta” em Deus que não se vê nem a si nem a ele, o que faz com que Deus seja devolvido à liberdade e plenitude do seu ser e visão solitários, anteriores ao surgimento da alma, o que só é possível mediante a livre entrega desta. Nada há agora senão Deus. Essa reunificação divina é ainda, num sentido, uma experiência da alma e o “estado mais nobre” que ela pode conhecer na sua existência terrena, havendo outro, o “sétimo” estado, o “Paraíso”, “perfeito sem falha”. Nele é Deus que age nas almas sem elas. Em Margarida Porete, a divinização da alma não só lhe permite ver Deus em todas as coisas, mas ser ainda todas elas, encontrar-se por “todo o lado”, numa infinitização também extensiva. Em sua reflexão, a beguina transfere para a linguagem vernacular uma experiência de Deus concebido não na ordem do poder, mas na ordem do amor/cortesia/caridade.

A mística escreveu o livro "O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas". Escrito por volta do ano 1290, o livro retrata o percurso místico até a união com Deus a partir da linguagem da literatura do amor cortês, em forma de diálogo entre a Dama Amor, a Alma Aniquilada e a Razão. Na época, os exemplares encontrados foram apreendidos e queimados e Porete foi advertida sob a pena de ser presa. Como a religiosa não obedeceu às ordens, foi encarcerada em 1309 e, por um ano e meio, se recusou a colaborar com os inquisidores. Quinze artigos do livro foram retirados de seu contexto original e entregues para 21 teólogos da Universidade de Paris para avaliação. O livro foi queimado em 1306, e condenado de novo em París em 1309. Margarida Porete foi condenada pela Inquisição em 31 de maio de 1310.

Em 1º de junho de 1310, Porete foi condenada e queimada em praça pública, em Paris, como herege relapsa, pois havia sido avisada de que a Igreja não estava de acordo com suas idéias.

PENSAMENTOS DE MARGARIDA PORETE

"Amor me faz, por nobreza,
encontrar esses versos de canção.
Aconteceu pela pura Divindade,
da qual Razão não sabe falar,
e por um amigo que eu tenho, sem mãe,
saído porém de Deus Pai e também de Deus Filho.
Tem nome Espírito Santo,
e estou-lhe tanto unida no coração,
que me faz viver na alegria.
É o país do nutrimento
Que o amigo dá se o se ama".

"De maneira que não posso ser o que devo ser até que seja de novo aí onde fui, neste ponto onde me encontrava, antes que saísse dele, tão nua como é aquele que é, tão nua como eu era quando era aquela que não era. Eis o que me é necessário obter, sequer o recuperar a posse do que é meu, sem o que não terei absolutamente nada".

"A obra é coisa de Deus que a opera em mim. Eu não lhe devo obra alguma, posto que é Ele mesmo quem a opera em mim. Se pusera algo meu, prejudicaria sua obra".

"É necessário que esta alma seja semelhante a divindade, pois ela é transformada em Deus, pelo que se mantém sua forma verdadeira, que lhe é concedida e dada sem começo unicamente por aquele que lhe há amado sempre em sua bondade".

"Oh Amado, Tu me tens possuído em teu amor, para dar-me teu grande tesouro, que é dar-te a ti mesmo, Tu, a divina bondade. E se o coração não pode dize-lo, um puro nada-querer o adivinha, Ele, que tão alto me tem feito subir, com uma união de coração a coração que jamais devo revelar".

"Eu disse: o amarei;
minto, eu não estou!
Ele é o único que me ama:
Ele é, eu não sou!
E já nada me importa,
senão tudo o que Ele quer,
senão tudo o que Ele vale,
Ele é em plenitude:
dEle recebo plenitude;
este é o divino coração
e nossos amores leais"

"Oh, muito preciosa Ester, vós que tendes perdido todo exercício, e cujo exercício, por esta perda, é não fazer nada, sim, vós sois verdadeiramente preciosa! Pois, em verdade, este exercício e esta perda se fazem no nada de vosso Amado, e neste nada desfaleceis e permaneceis morta, enquanto que viveis, amada, totalmente em seu querer: aquela é sua habitação, e ali é onde lhe agrada residir".

“Quem serve, não é livre;
Quem sente, não está morto;
Quem deseja, quer;
Quem quer, mendiga;
Quem mendiga, falta
Ao divino contentamento”.

“Pensar já nada vale aqui,
Nem agir, nem falar.
Amor me arrasta tão acima
- pensar já nada vale aqui –
Por seus divinos olhares,
Que não tenho nenhum desejo.
Pensar já nada vale aqui,
Nem agir, nem falar”.

Um comentário:

Barbara disse...

Olá gilberto. Seu blog já está em meus favoritos! Não sou católica, sou espírita mas acima de tudo cristã. Estas biografias e alguns escritos destas pessoas maravilhosas são realmente facinantes e graças a Deus que existem pessoas como você que utilizam de seu tempo para divulgar tantas lições. Parabéns pelo Blog! Abraços Bárbara