segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

JOHANNES TAULER (1300-1361)

Johannes Tauler foi discípulo de Eckhart e dominicano como ele. Tauler representa o pólo eminentemente moral diante do predomínio da especulação metafísica daquele e do elemento afetivo de Suso. No pensamento e doutrina de Tauler é fácil encontrar elementos platônicos e neoplatônicos, sem esquecer outros procedentes de Santo Alberto Magno e de Santo Tomás. Tauler é um pregador e um místico interessado mais pela mística do que pela filosofia e pela razão.

Nascido em Estrasburgo, em 1300, ingressou no convento dominicano dessa cidade em 1318 e depois foi para o Studium generale de Colônia, onde realizou seus estudos. Foi aí que encontrou provavelmente o mestre Eckhart. Quase toda a sua vida transcorreu em Estrasburgo, onde se dedicou ao ensino e, em especial, à pregação. Não escreveu nenhuma obra. De seus famosos sermões, que vários ouvintes colocaram por escrito, somente 81 são considerados autênticos. Consideram-se apócrifos os tratados que lhe foram atribuídos, como As instituições divinas; Medulla animae; As 10 cegueiras espirituais etc.Na mística se manteve na linha de Eckhart, mesmo depois da condenação de várias proposições deste, em 1329. Obedece uma linha tomista, mas com ressonâncias do neoplatonismo de Porfírio e Proclo. Sua mística é orientada para a Ética. Foi intimamente associado aos líderes de um movimento místico novo chamado "os Amigos de Deus", que dedicavam-se a espalhar os ensinamentos de Eckhart.
Johannes Tauler faleceu em 1361.

Sobre o plano da doutrina eckhartiana da união da alma com o uno, Tauler constrói sua doutrina da “essência da alma”, a qual também chama, “união íntima da alma” e “reduto inominável”, como é o próprio Deus. Nessa essência, para além da própria essência da alma, reinam um silêncio e um repouso perpétuos, sem imagens, sem conhecimentos, sem ação, em pura receptividade em relação com a luz divina. Tal é a concepção mística de Tauler, baseada na possibilidade de retorno de uma alma criada por Deus à sua idéia incriada em Deus.

— No pensamento de Tauler ocupa um lugar central a teoria do Gemüt ou disposição estável da alma, que condiciona a atuação de todas as suas faculdades. É o coração ou a tendência original do homem enquanto filho de Deus, sua aspiração absoluta ao bem absoluto. É como uma agulha magnética que se volta, infalivelmente, para o norte. O homem pode desviá-la, mas jamais mudar sua tendência original. Está presente em todo homem e não se extingue em nenhum ser humano, nem sequer nos condenados.

— Sendo o Gemüt a atitude estável e permanente da alma com sua própria essência, deve transformar-se de impulso vago em consciência luminosa do fim, libertando-se de pensamentos, desejos e afetos até conseguir o pleno desprendimento de tudo. Esse impulso, tendência, coração, ímã que é o Gemüt deve tornar-se liberdade absoluta, desprendimento, respeito pelas criaturas, para transformar-se em liberdade absoluta no caminho que leva a Deus.

— O processo de retorno a Deus acontece em três etapas: o amor doce, o amor sábio e o amor forte. Nesse caminho, a alma despoja-se de sua condição de criatura e identifica-se na “essência” com o próprio Deus. “Perde-se em Deus e mergulha no mar sem fundo da divindade”. A alma pode, então, entregar-se completa e confiadamente a Deus. Isso não quer dizer que Tauler afirme, como se disse, que a alma se torne divina, idéia na qual tanto insistiu seu mestre Eckhart.

A influência de Tauler é notável na história da espiritualidade cristã e particularmente notável é a que exerceu sobre Lutero. Este sentia uma profunda estima por Tauler, cujas obras utilizava com freqüencia, anotando-as pessoalmente. Dele tomou uma espiritualidade profunda, uma imensa confiança na misericórdia divina, a convicção da própria incapacidade e o desprezo pelas próprias ações. Mas Lutero acabou por interpretar à sua maneira alguns textos de Tauler, que em seu contexto original tinham um significado muito diverso.

PENSAMENTOS DE JOHANNES TAULER

"Então somos abandonados de tal forma que já não temos conhecimento de Deus e caímos em tal angústia que não sabemos se estivemos no caminho justo, nem sabemos já se Deus existe ou não, ou se nós mesmos estamos vivos ou mortos. De sorte que sobre nós cai uma dor tão estranha que nos parece que todo o mundo em sua extensão nos oprime. Já não temos nenhuma experiência nem conhecimento de Deus, e inclusive todo o demais nos parece repugnante, de forma que nos parece estar prisioneiros entre dois muros".

"Como o girassol eternamente a voltar-se para o poderoso Sol, com a fidelidade da constânciaseguindo apenas um - assim faça de mim, Senhor, para consigo".

"Honramos e glorificamos Seu mistério inefável com a sagrada reverência e o silêncio".

"Deus é infinito, sem fim, mas o desejo da alma é um abismo que não pode ser preenchido a não ser por um Bem que seja infinito; e quanto mais ardentemente a alma ansiar por Deus, mais desejará estar com Ele, pois Deus é um Bem sem desvantagens e um poço de águas vívidas sem fundo; e a alma é feita à imagem de Deus e, portanto, foi criada para conhecer e amar Deus."

“Senhor, é tua graça e teu amor que capacitam meu coração a crer, a esperar e a amar. Posso ir a teu encontro e abraçar-te como meu verdadeiro amigo. Posso confiar em ti, meu bondoso Pai. Tu és um mar de graça, de consolo e amor”

"Que disse Nosso Senhor a Zaqueu? 'Desce depressa'. Tu deves descer, não deves reter uma única gota de consolação de todas as tuas impressões na oração, mas descer no teu puro nada, na tua pobreza, na tua impotência... Se te resta ainda algum elo da natureza, desde que a verdade te deu alguma luz, tu ainda não a possuis, ela não se tornou um bem teu; natureza e graça trabalham ainda juntas, e tu não chegaste ao abandono perfeito...; isso ainda não é a pureza plena. É por isso que Deus convida um tal homem a descer, quer dizer que ele o chama a uma renúncia plena, a um plenodesprendimento da natureza, em tudo o que ela possui ainda algo de seu."

"Ninguém sabe melhor o verdadeiro sentido da distinção (diferença) do que aqueles que entraram na unidade."

"Que mais pode fazer para nós que não haja feito? Abriu seu mesmo Coração para nós, como o quarto mais secreto donde conduz nossa alma, sua noiva eleita. Porque é seu gozo estar conosco em silencio e paz, para repousar-se ali conosco... Nos deu seu Coração ferido para que residamos ali, completamente purificados e sem mancha, até que sejamos semelhantes a seu Coração, feitos capazes e dignos para ser conduzidos com Ele ao Coração divino de seu Pai... Nos dá seu Coração completamente, para que seja nossa habitação. Por isso deseja nosso coração em troca, para que seja sua habitação".

"Todos os homens buscam a paz. Por todo o lado, nas suas obras e de todas as maneiras, procuram a paz. Ah! Pudéssemos nós libertar-nos dessa busca e procurarmos, nós, a paz, no tormento. Só aí nasce a verdadeira paz, aquela que permanece e dura... Procuremos a paz na angústia, a alegria na tristeza, a simplicidade na multiplicidade, a consolação na contrariedade; é assim que nos tornaremos verdadeiras testemunhas de Deus".

"A alma suporta dentro de si uma centelha, um fundamento, cuja sede Deus todo-poderoso não pode satisfazer, a não ser dando-se a si mesmo. Se Ele tivesse que dar à alma o espírito das forma de todas as coisas que criou no céu e na terra, então isto não seria suficiente e não poderia satisfazer sua sede, que a alma possui por sua natureza".

"Não é certo que Nosso Senhor declarou: 'Uma só coisa é necessária'? Qual é então essa única coisa que é necessária? A única coisa necessária é que reconheças a tua fraqueza e a tua miséria. Tu nada podes reivindicar; por ti mesmo, nada és".

"Qual é, então, o caminho mais curto, que conduz a verdadeira luz? Eis tal caminho: renunciar verdadeiramente a si mesmo, amar e não ter em vista senão só Deus […], não querer em coisa alguma o próprio interesse, mas desejar e procurar somente a honra e a glória de Deus, esperar tudo imediatamente de Deus e, sem desvio nem intermediário, a Ele remeter todas as coisas, venham de onde vierem, a fim de que haja entre Deus e nós um fluxo e um refluxo imediatos. Eis o verdadeiro caminho, o caminho reto."

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