quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

MIGUEL DE MOLINOS (1628-1697)

O sacerdote católico espanhol, Miguel de Molinos aparece como sendo um dos mais controvertidos personagens da história da Igreja Católica. Miguel de Molinos nasceu em 1628, em Saragoça, Espanha, em berço abastado. Embora o material de pesquisa sobre sua família seja escasso, supõe-se que Molinos tenha sido um dos últimos filhos, senão o mais novo, de uma nobre família dessa região, pois era costume da época que os filhos mais jovens da nobreza fossem confiados à Igreja para serem preparados à vida religiosa. Em Valência, Molinos foi educado no Colégio Jesuíta de São Paulo.

Possuidor de grandes habilidades naturais à religiosidade, Molinos se dedicou ao serviço de seus companheiros sem qualquer tipo de ganho para si próprio. Sua vida foi inteiramente consagrada a seus semelhantes e marcada por grande piedade e generosidade. Com o aumento de sua popularidade, a procura pelos conselhos do Padre Molinos se tornou tão grande que ele começou a receber uma certa pressão no sentido de registrar seu pensamento e seus ensinamentos. Deste modo, muitos outros teriam acesso a sua doutrina. Assim, Molinos, por volta de 1673,começou a escrever seu método de consecução espiritual. Em 1675, Molinos publicou seu "O Guia Espiritual", no qual ele expunha, demodo claro e direto, a sua doutrina mística para aquele buscador que desejava enxergar.

O Guia Espiritual de Miguel de Molinos, escrito sem a pompa e a especulativa erudição dos teólogos e autores da época, rapidamente ganhou ocoração dos seus leitores, atingindo, com igual força, tanto o profanoquanto o doutor, alcançando fama na Itália e na Espanha. Em seguida, esselivro ganharia novas traduções, aumentando ainda mais a fama de seu autorpor toda a Europa. Molinos adquiriu tal reputação, que seu nome e suas idéias começaram achamar a atenção de certos segmentos do clero, principalmente de alguns Jesuítas e Dominicanos que, temendo um crescimento ainda maior de sua popularidade, resolveram pôr um fim em sua crescente fama, evitando assim apossibilidade de um novo cisma dentro da Igreja. A morte de Miguel de Molinos na prisão, em dezembro de 1697, e a constante perseguição imposta àqueles que ainda seguiam os seus ensinamentos acabariam por decretar o fim da curta história dos Quietistas.

A filosofia de Molinos, conforme seu Guia Espiritual, diz que, no sublime propósito de se realizar a perfeição cristã, bem como a suprema comunhão com Deus, o homem deverá se submeter inteiramente aos Seus desígnios, com humildade, anulando por completo a sua vontade individual. A vida em si deveria ser um contínuo ato de amor e fé. A via espiritual, portanto, era resumida por uma perfeita quietude de desejos, passividade total da alma suplicante diante de Deus e, de tal modo deveria ser ocomportamento do buscador, que mesmo o desejo de sucesso nessa demanda teriaque ser excluído. Da mesma forma, o desejo de felicidades mundanas, virtudes e qualquer outro tipo de atividade humana, tudo era tido como obstáculo entre a alma e Deus, devendo ser, igualmente, excluídos de seu ser. Conforme Molinos, aquela alma, que porventura galgasse tal estado de aniquilação, se encontraria em uma condição na qual lhe seria impossível cometer erros ou pecados. E mesmo se por acaso essa abençoada alma parecesse pecadora ante os olhos mundanos, ou até se ela parecesse, de modo exterior, violar qualquer um dos mandamentos de Deus ou algum dos preceitos da Igreja, interiormente, ela estaria em perfeita quietude, onde a verdade de sua santidade apenas revelaria em seus atos a própria vontade de Deus. Nesse estado de plena iluminação, as orações, penitências e qualquer luta contra as tentações já não mais seriam os instrumentos utilizados por ela,pois ela estava unida ao Criador.

QUIETISMO

O quietismo é uma concepção místico-religiosa que busca a união do homem com Deus por meio de um estado de passividade ("quiete") e de total abandono davontade que atenua ou suprime toda responsabilidade moral. No âmbito do cristianismo oriental, elementos quietistas podem ser encontrados entre os messalianos ou êuquitas, condenados pelo Concílio de Éfeso (431), e entre os monges hesicastas do monte Atos.

No Ocidente, o quietismo está expresso emalgumas tendências dos cátaros, dos Irmãos do Livre Espírito, dos beguinos ou begardos e dos alumbrados espanhóis. A doutrina do quietismo, porém, só se explicitou no século XVII no âmbito de algumas correntes no seio da Igreja católica, influenciadas pelo protestantismo. Seu principal expoente foi o espanhol Miguel de Molinos, confessor e diretor espiritual muito apreciado em Roma desde 1663, que, em seu "Guia espiritual", sustentava aperfeita quietude e passividade da alma diante de Deus, de forma a excluir toda atividade e aspiração própria do homem. Em 1675, publicou o "Breve tratado sobre a comunhão cotidiana" e o "Guia espiritual que liberta a alma e a conduz pelo caminho interior para alcançar a perfeita contemplação e o rico tesouro da paz interior", em que estão contidos os princípios fundamentais do quietismo, encabeçados pelo princípio da superioridade da contemplação sobre a meditação. Dez anos mais tarde, ao que parece atendendo a solicitação explícita dos jesuítas, Molinos foi preso sob a acusação de heresia (1685). Obrigado a abjurar, por fim foi condenado à prisão perpétua, com a bula "Caelestis Pastor" do papa Inocêncio XI (1687).

Na França, Madame Guyon e seu confessor, F. Lacombe, promoveram o desenvolvimento de tendências quietistas, cujos vestígios também estão presentes na polêmica sobre o "amor puro" entre J. B. Bossuet e F. Fénelon, que terminou com a condenação das teses de Fénelon por Inocêncio XII (1699).

PENSAMENTOS DE MIGUEL DE MOLINOS

"A oração (...) é uma elevação da mente a Deus. E para colocar a mente emDeus, que é a contemplação, é necessário deixar as considerações ediscursos, mesmo elevados, que constituem a meditação. Esta, dizem ossantos, busca, expõe, rumina ou mastiga o alimento divino. E, se estamossempre mastigando ou ruminando a comida na boca e nunca engolimos parasossegá-la e dirigi-la com quietude no estômago, não poderemos viver, nemsustentar-nos, ou tirar proveito algum. A meditação também é um meio parachegar ao término e ao fim, que é a contemplação. A contemplação é encontrara coisa, é saborear e sossegar o alimento divino no estômago, é o fim e aconclusão do caminho, e é chegar a entender e conhecer Deus."

“Veste-te desse nada, dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada seja teu contínuo sustento e morada, até aprofundar-te nela; eu te aseguro que, sendo tu desta maneira o nada, seja o Senhor o todo em tua alma”.

“Ultimamente não mires nada, não desejes nada, não queiras nada, não solicites saber nada, e em tudo viverá tua alma em quietude e gozo descansada. (…) Caminha, caminha por esta segura senda e procura nesse nada submergir-te, perder-te, abismar-te, se queres aniquilar-te, unir-te e transformar-te”.

"O que tu hás de fazer será não fazer nada, procura nesse nada submergir-te... O que importa é preparar teu coração a maneira de um papel em branco, aonde a divina sabedoria possa formar os caracteres a seu gosto".

"A atividade natural é inimiga da Graça, impedindo a ação de Deus e a verdadeira perfeição, porque Deus deseja operar em nós, sem nós".

(A perfeita aniquilação): "ter-se em baixa estima a si mesmo e a todas as coisas do mundo".

"Veste-te desse nada e dessa miséria, e procura que essa miséria e esse nada sejam teu continuo sustento e morada".

"Pelo caminho do nada hás de chegar a perder-te em Deus, que é o último grau da perfeição".

(Sobre a auto-estima) “Esta hidra de sete cabeças do amor próprio se ha de degolar para chegar ao cume do alto monte da paz”.

“Não está a graça em gozar, senão em padecer com quietude e resignação".

. “As tentações, são uma grande felicidade. O modo de rechaça-las é não fazer caso delas, porque a maior das tentações é não te-las”.

“O verdadeiro amor se conhece em seus frutos, que são uma humilhação profunda e um desejo sincero de ser mortificado e desprezado. No fundo de nossa alma está o assento da felicidade, alí nos descobre o Senhor suas maravilhas. Perdámo-nos, submerjámo-nos no mar imenso de sua bondade infinita, e fiquemos alí fixos e imóveis. Morramos sem cessar para nós mesmos; conheçamos nossa miseria”.

JULIANA DE NORWICH (1342-1421)

Juliana nasceu em 1342 e faleceu em Norwich, Inglaterra em 1421. Beneditina ela foi uma reclusa em Norwich, vivendo fora das paredes só quando ia a Igreja de São Julião e experimentou 16 revelações.

O seu livro “Revelations of Divine Love” (Revelações do Amor Divino) que é um excepcional trabalho sobree o amor de Deus, na Incarnação, Redenção e na Divina Consolação, fez dela uma das mais importantes escritoras da Inglaterra. Ela escreveu sobre o pecado, penitencia e outros aspectos da vida espiritual e seus trabalhos brilhantes atraíram estudiosos de toda a Europa. Ela é chamada Santa mas na verdade não foi formalmente canonizada.

Entre as místicas inglesas nenhuma é mais notável que Lady Juliana que viveu perto de Norwich, em uma ermida de três quartos no quintal da igreja de Conisford. Absolutamente nada é conhecido da sua vida antes de se tornar uma Beneditina reclusa.De fato nem sabemos se seu nome era esse mesmo ou a ela foi dado o nome da cela em que ela vivia.

Em 1393 Lady Juliana era uma reclusa e tinha dois serventes que a atendiam quando atingiu a idade avançada. Ela recebeu 16 revelações e passou 20 anos meditando sobre elas. As revelações foram seguidas de estado de êxtase, da Paixão de Cristo e da Trindade.Ela viu o sangue vermelho fluindo sob a Coroa de Espinhos, viu a Virgem como uma jovem e simples senhora. Viu Jesus mostrando a ela uma castanha na palma de sua mão. Ela pensou: “O que será isso?” e Ele respondeu: “Isto é tudo que é criado. Deus deu forma, Deus deu vida, Deus mantém ela assim.”

Assim ela aprendeu a bondade de Deus “para o qual a nossa mais elevada das preces deve ser dirigida”. “O qual desce para atender as nossas menores necessidades”. E ainda em relação a cruz ela viu a misericórdia Divina caindo como uma fina chuva de graças durante a Sua Paixão. Ela viu o Senhor morrendo e os Seus terríveis tormentos e a agonia de Seus sofrimentos e escreveu: “Assim eu O vi e eu O amava”.

Para Juliana de Norwich, a maternidade, representa a plenitude de Deus em criar, redimir e chamar o mundo à liberdade. Igualmente, também Jesus Cristo “é a nossa verdadeira Mãe”, que nos nutre e não permite que morramos, porque o amor da mãe é o amor total que não admite derrota. Na época de sua morte ela tinha uma vastíssima reputação e atraía visitantes de toda a Inglaterra para a sua cela.

PENSAMENTOS DE JULIANA DE NORWICH

"A nossa verdadeira Mãe, Jesus, ele somente nos gera para a alegria e a vida eterna […] Por isso é para ele como uma obrigação nos nutrir, porque o precioso amor da maternidadeo fez devedor para conosco. Uma mãe pode dar à criança seu leite para mamar, mas a nossa caríssima Mãe Jesus é capaz de nos nutrir de si mesmo […] A palavra “mãe”, bela e cheia de amor, é em si tão doce e gentil que não pode ser propriamente dita de ninguém e a ninguém a não ser dele e a ele, que é a verdadeira Mãe da vida e de tudo. São propriedades da maternidade o amor natural, a sabedoria e o conhecimento, e isto é Deus"

“Uma mãe pode deixar que a criança caia de vez em quando e sofra diversas dificuldades, e isso para o seu bem, mas não pode nunca permitir, pelo amor que tem por ela, que a criança seja vítima de qualquer perigo. E também se a nossa mãe terrena pode deixar morrer a sua criança, a nossa Mãe celeste, Jesus, não pode nunca permitir que os seus filhos pereçam, porque ele é onipotente, toda sabedoria e amor".

"Eu sou o fundamento da tua súplica; primeiro é minha vontade que recebas o que suplicas; depois, faço-te desejá-lo; e então faço-te suplicá-lo e tu o suplicas. Como pois não haverias de receber o que suplicas?"

"Aprendi, pela graça de Deus, que é necessário manter-me firmemente na fé, e acreditar com não menos firmeza que todas as coisas são boas... E verás que todas as coisas são boas"

"Nós somos tão preciosamente amados de Deus que não podemos sequer compreender isto. Nenhum ser criado pode saber o quanto Deus doce e ternamente o ama"

"Fazer vencer o bem sobre o mal é uma característica de Deus".

"Por conseguinte, Jesus Cristo, que, opondo-se, venceu o mal com o bem, é a nossa verdadeira Mãe: d’Ele nós recebemos o nosso 'Ser'- e aqui tem início a Sua Maternidade - e com esse recebemos também a doce Proteção e Custódia do Amor que não cessará de nos rodear".

"Como é verdade que Deus é nosso Pai, assim também é verdade que Deus é nossa Mãe. E esta verdade Ele me mostrou em cada coisa, mas especialmente naquelas doces palavras nas quais Ele diz: 'Eu o sou'”.

"O que é o mesmo que dizer, eu sou a Potência e a Bondade do Pai; eu sou a sabedoria da Mãe; eu sou a Luz e a Graça que é o bem-aventurado amor; eu sou a Trindade; eu sou a Unidade; eu sou a Bondade soberana de todas as coisas; eu sou Aquele que te faz amar, eu sou Aquele que te faz desejar, eu sou o acontentamento infinito de todos os verdadeiros desejos".

"O nosso Pai altíssimo, Deus Onipotente, que é o Ser, conhece-nos e ama-nos desde sempre: de tal forma que, pela sua maravilhosa e profunda caridade e pelo unânime consenso de toda a bem-aventurada Trindade, Ele quis que a Segunda Pessoa se tornasse nossa Mãe, nosso Irmão, nosso Salvador".

"É, portanto, lógico que, sendo Deus nosso Pai, seja também nossa Mãe. O nosso Pai quer, a nossa Mãe realiza e o nosso bom Senhor, o Espírito Santo, confirma; portanto, convém-nos amar o nosso Deus, no qual temos o Ser, agradecê-lo com reverência e louvá-lo por nos ter criado, e orar ardentemente à nossa Mãe para obter misericórdia e piedade, e orar ao nosso Senhor, o Espírito Santo, para obter a sua ajuda e graça".

"E vi com toda a certeza que Deus nos amou antes de nos ter criado, e que o Seu amor nunca diminuiu, e nunca diminuirá. Neste amor Ele fez todas as Suas obras e neste amor Ele faz concorrer todas as coisas em nosso benefício; e neste amor a nossa vida é eterna".

"Na criação nós tivemos um início, mas o amor com o qual Ele nos Criou existia n’Ele desde sempre: e neste amor nós temos o nosso início. E veremos tudo isto em Deus, eternamente."

"Então vi que, no meu entender, era uma grande união entre Cristo e nós; pois quando Ele padecia, padecíamos também. E todas as criaturas que podiam sofrer sofriam com Ele".